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Arte e Consciência

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Arte e os Crimes de Plástico

Outro dia, olhando os trabalhos “lowbrow” de Ray Caesar (http://www.raycaesar.com/), pensei na fina linha que separava alguns trabalhos artísticos de crimes. Na biografia do artista consta que ele trabalhou como fotógrafo documentarista no Chidren’s Hospital of Toronto que atende casos de abuso infantil. Segundo o artista, a arte que ele faz, antes de ser uma ode à pedofilia, se trata de uma forma de redenção, isto é, a representação dessas crianças com aparência serena, fazendo face a essa ferocidade, aparentando aceitação e naturalidade, elas deixariam assim de serem as vítimas, até mesmo exercendo o controle da situação. Dessa forma essas pequenas almas atormentadas teriam um lugar melhor, um pequeno pedaço de céu ofertado por ele em seus trabalhos.

Isso me fez pensar em várias questões envolvendo a arte e uma tendência quase insuportável do “politicamente correto” nos dias de hoje. Como separar o “correto” do medroso e do hipócrita, mau humorado, ou, pior, da falta de entendimento do que seria correto mesmo? Refiro-me a todos os outros tipos de representações que envolvam imagens violentas, sexuais, pornográficas, de abuso, questões racistas, estupro, formas naturais e provocadas de morte e o que mais possa levantar dúvidas sobre o “correto” e os tabus de nossa cultura e de outras culturas. Mas, na verdade, não é só a questão do “correto” que me chama atenção, e sim, se a tal liberdade de expressão pode existir mesmo nos casos “incorretos”. Eu acho que deveria sim, por isso dei o título de “Os Crimes de Plástico” (*), pois deveriam ser só isso mesmo, a morte de plástico, o sexo de plástico, tudo de plástico, como em muitos filmes que por aí. Funcionariam sempre como reflexão e curiosidade em relação a como o outro sente ou pensa, suas influências culturais, seus desvios, mas desde que não passe disso.

Vivemos em uma época que o “politicamente correto” atende as exceções, não aos fatos de maneira geral. Será que a maioria dos padres é mesmo pedófila? É possível generalizar assim? Creio que não. Mas hoje tome cuidado em manifestar carinho por uma criança, podem ficar com muito medo e desconfiados de você. Se você for médico, certifique-se que na consulta sempre tenha um terceiro junto, uma enfermeira ou secretária, pois você pode ser acusado de algum ato impróprio. Cuidado quando falar de cores, pode ser interpretado como algo de tendência racista. Se você é professor, cuidado com o tratamento com alunos/as, pois pode ser acusado de assédio. Mesma coisa com colegas de trabalho. Cuide com as piadas. E assim por diante…

E fico pensando quanta mudança já aconteceu nas sociedades. O livro “A Sombra de Dionísio” do Maffesoli é bem informativo a respeito. Muitos tabus sobrevivem no underground até que subam e sejam encarados como “normais” pela sociedade. A mulher votar já foi tabu, ter controle e decisões sobre seu próprio corpo ainda é uma conquista. A nudez é um tabu, posso vender revistas para satisfazer essa curiosidade, mas para um índio não fará muito sentido. O homossexualismo aos poucos abre espaço e é aceito sem tanto trauma, deixou de ser doença, mas em alguns lugares do mundo é crime e se pune com a morte, durante muito tempo se pensava em tratamentos psicológico (!).  O uso de psicoativos como a ayahuasca no Brasil é permitida a grupos religiosos e se discute se é droga, em alguns países a pena é a mesma dada para substâncias como a cocaína, é considerado tráfico e da prisão sem fiança.

Não que um estupro tenha que ser considerado normal, dois cientistas até fizeram pesquisas a esse respeito no livro A Natural History or Rape – Biological Bases of Sexual Coercion de Randy Thornhill e Craig T. Palmer, editado pelo MIT, mas não significa que deva ser uma prática aceita, ninguém quer ser estuprado de verdade (sabe-se que em fantasias não é tão incomum), então tem que existir controle penal sobre essas coisas, mesmo que fossem “instintos naturais”. Já os pesquisadores que citei, não cheguei a ler o livro, parece que nunca mais puderam dar palestras sem perigo de serem agredidos! É como disse Bertrand Russel: “infringir crueldade com a consciência em paz é um deleite para os moralistas – foi por isso que eles inventaram o inferno”, assim não sentem culpa em levar o outro para a fogueira, vide a Santa Inquisição, as Guerras contra o Terror, os fundamentalismos religiosos, etc. Mas não se trata de defender o “crime”, um leão come gente, sem problema, é natural, não é crime, nem por isso as grades do zoológico estão abertas…

Nessa linha que estou falando, lembro do Robert Crumb, famoso desenhista de HQ plenamente atuante ainda. Há uns quadrinhos de incesto que acaba com a frase “devíamos fazer mais vezes isso em família”, simplesmente hilário, não é pra levar a sério. E tem outras histórias mais “escabrosas” ainda, como algumas do Mister Natural e um bebê gigante. Quem quiser ver que procure (risos). É tão insano que também não pode ser levado a sério. Crumb faz uma provocação quase terapêutica, catártica, em cima dos tabus mais básicos da nossa sociedade, o considero um gênio por essa capacidade. Se chocar com isso é puro falso moralismo, pois essas coisas não estão em questão de forma alguma no “mundo real”. Outro artista que trabalha questões de sexo e violência é o Trevor Brown e pode ser encontrado nesse link http://www.pileup.com/babyart/_top.htm.

Acho que as pessoas, bem intencionadas, ponderarão: “mas será que essa liberdade não influenciaria o comportamento das pessoas”? Acho que influenciaria tanto quanto qualquer fantasia, as pessoas sabem que se trata de fantasia. Falaram tanto no malefício dos videogames violentos, mas as crianças sabem que aquilo é de “plástico”. Eu brinquei muito com pistolas imitação das reais (hoje proibidas no Brasil), dei centenas de tiros em meus amigos, jamais me passou pela cabeça em comprar revólver de verdade para ficar dando tiros nos outros depois de adulto. As causas que levam aos crimes são bastante diferentes na história de cada caso, não culpemos as fantasias, não culpemos a arte.

Concluindo, liberdade absoluta de expressão é a melhor forma de conhecermos esse ser complexo que é o humano. Primeiramente vamos parar de fingir que o ser humano é saudável (risos). Quem não quiser, que não veja, evite, procure não se identificar, mas acho que sabemos muito pouco sobre nossa complexidade humana, biológica e cultural, estamos condicionados a padrões, limitados na ação e expressão e isso sim me parece mais próximo de causar patologias. A arte, acima da ciência nesse sentido, deve ter o direito desse devaneio nos tabus e ver o que sobra disso. Parece-me menos hipócrita e, reafirmando minha crença, não creio que a arte induza a nenhum tipo de crime, por si só ela já é uma catarse, justamente o que está sendo representado ali, talvez não vaze para o mundo.

(*) Essa expressão ouvi pela primeira vez de um grande artista e amigo: Celso Júnior.

Ramachandran e seu cérebro

Como separar produção artística de nossa massa gelatinosa?
Arte pela arte possui uma epistemologia própria? Ou o ser humano* produz arte? (* com todas as implicações do termo…)
Achei divertida as colocações do Ramachandran sobre Freud, acho que isso também mostra o quanto necessitamos revisões na psicologia terapêutica.
Enfim, não é um vídeo discutindo arte e neurociências, pra mim serve de reflexão interdisciplinar, pois tenho visto dificuldades nas pesquisas devido a algumas instituições limitarem a discussão em arte de forma disciplinar, para mim isso é de um reducionismo simplista diante do “ser que produz arte”.
Não consegui colocar o vídeo aqui, mas deixo o link pra quem se interessar (tem legenda em português).

Ramachandran_on_your_mind

A razão pura não existe: nós pensamos com o nosso corpo e nossas emoções.

Tabula Rasa

O texto abaixo é um pequeno recorte de um capítulo que se encontra no livro Tabula Rasa – A Negação Contemporânea da Natureza Humana – de Steve Pinker, professor de psicologia de Harvard, especialista em Ciências Cognitivas, ex-professor do MIT (um dos maiores centros de pesquisa do planeta) e que traz em seu livro algumas reflexões sobre Arte e Natureza Humana.

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Embora as formas exatas de arte variem muito entre as culturas, as atividades de criar e apreciar arte são reconhecíveis em toda a parte. O filósofo Denis Dutton identificou sete assinaturas universais:

  1. Perícia ou virtuosismo. Habilidades artísticas técnicas são cultivadas, reconhecidas e admiradas.
  2. Prazer não utilitário. As pessoas apreciam a arte pela arte, e não requerem que ela as mantenha aquecidas ou que lhes ponha comida na mesa.
  3. Estilo. Objetos e representações artísticas satisfazem regras de composição que as situam em um estilo reconhecível.
  4. Crítica. As pessoas fazem questão de julgar, avaliar e interpretar obras de arte.
  5. Imitação. Com algumas importantes exceções como música e pintura abstrata, as obras de arte simulam experiências do mundo.
  6. Enfoque especial. A arte é distinguida da vida comum e dá um enfoque dramático à experiência.
  7. Imaginação. Artistas e seus públicos imaginam mundos hipotéticos no teatro da imaginação.

As raízes psicológicas dessas atividades recentemente tornaram-se tema de pesquisas e debates. Alguns pesquisadores, como a acadêmica Ellen Dissanayake, acreditam que a arte é uma adaptação evolutiva, como a emoção do medo e a capacidade de ver em profundidade. Outros, como eu, acreditam que a arte (exceto a narrativa) é um subproduto de outras três adaptações: a ânsia por status, o prazer estético de vivenciar objetos e ambientes adaptativos e a habilidade de elaborar artefatos para atingir os fins desejados. Desta perspectiva, a arte é uma tecnologia de prazer, como as drogas, o erotismo e a culinária refinada – um modo de purificar e concentrar estímulos prazerosos e enviá-los aos nossos sentidos (PINKER 2004, 546).

–> Para ler um pouco mais sobre Steve Pinker, além do site, saiu na Folha de São Paulo uma interessante entrevista com ele e o escritor McEwan aqui.

(Interessante refletir que praticamente apenas nas Artes Visuais algumas coisas “estranhas” acontecem, isto é, você já viu um malabarista apenas deixando cair os malabares? Sim, isso, malabarismo “pós-moderno”. Parece familiar com muitas produções “contemporâneas” de Artes Visuais? Coisa pra se refletir, não? Há muita coisa boa, interessante e importante na arte atual, mas tem muita imitação duchampiana fraca por ai :D).

Infância

Certamente meu interesse em artes visuais foi influenciado por minha mãe.
Quando eu tinha 4 anos de idade eu a acompanhava até a EMBAP onde ela tinha aulas de pintura com Guido Viaro. Até hoje tenho imagens das pinturas que eu fazia lá.
Fui um pintor genial e profícuo quando pequeno. Hoje apenas vivo da fama adquirida desde então 🙂
Abaixo algumas das obras que fizeram parte de minhas pesquisas artísticas da época:

Essa foi do período neoplástico. Mondrian questionou a centralidade exagerada da composição. Não ficou muito feliz com o círculo embaixo à direita. Ele disse que estava muito subjetivo, pouco espiritual, mas se conformou com a cor verde, já que continha o azul e o amarelo usados por ele.

Essa árvore também fiz pra impressionar o Mondrian e homenagear suas fases anteriores, mas ele disse que eu devia consultar alguns japoneses antes.

Eu não entendi o lance dos japoneses e, então, fiz essa acima, pois havia me interessado pelos trabalhos de alguns fauves e sua liberdade no uso da cor.

Querendo concorrer, enfim, havia descoberto que no mundo temos que ser geniais e concorrer, sempre concorrer: segui os exemplos de Gauguin com o Cristo Amarelo e de Anita Malfatti com o Homem Amarelo, criei então a Mulher Amarela.

Depois enjoei e criei uma mulher mais nítida, porém poucos artistas foram tão objetivos e sintéticos como eu fui (coitados!).

Todo grande artista, principalmente do século passado, teve uma fase Expressionista Abstrato, como dotado de grande talento, aderi a idéia, enfim, era 1960!!!

Mas achei divertido por pouco tempo. Então resolvi aderir a Arte Pop. Como era muito pequeno, entendi errado e troquei Sopa por Sapo e fiz minha série de Sapos Campbell, para estar atualizado com o tio Andy Warhol.