Mikosz & Mythosz

Arte e Consciência

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Statement

(English bellow)

Artista transmídia, professor adjunto 4 da Unespar/Embap. Membro do CIEBA da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa (FBAUL). Conselheiro Jurisdicional da Universidade Rose+Croix Internacional (URCI). Faz parte do Quadro do Conselho da Wasiwaska – Centro Internacional de pesquisas sobre Consciência, Plantas Psicointegradoras e Arte Visionária. Membro do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos (NEIP) e do Instituto iNeuroPsi. Pesquisador em Arte e Estados Não Ordinários de Consciência (ENOC) – Arte Visionária e Psicodélica.

Muito cedo a vida me pareceu extremamente estranha e misteriosa, tendo visões e sonhos lúcidos a partir dos cinco anos de idade. Aos treze anos lia Lobsang Rampa e ouvi falar de rosacrucionismo pela minha mãe. Cheguei a fazer mapas astrais e leituras fisiognomônicas, além de incursões na cabala, alquimia, esoterismo e magia em geral. Participei de grupos terapêuticos como bioenergética, de-programação pessoal (baseado no Processo Hoffman), terapia Gestalt, Rebirthing e Meditações Osho. Frequentei o Grupo Gurdjieff e, por um período, fui facilitador de Movimentos. Mais tarde, buscando conhecer a relação do ser humano com o uso de Plantas Professoras, me associei ao Centro Espírita Beneficente União do Vegetal (UDV) chegando a fazer parte ali do Departamento de Documentação e Memória. Pratiquei ioga e fiz o curso de formação em Kundalini pelo Instituto Nanak. Há mais de três décadas me interesso por rock extremo e alternativo, sendo guitarra uma paixão. Relaciono-me com pintura e desenho desde “sempre”, fazem parte de minha vida como algo muito além da arte e que são o foco de minhas pesquisas acadêmicas atuais.

Não gosto de polarizações, acredito no livre pensamento e em todos os paradoxos disso. Vivo uma luta utópica antiproibicionista em todos os sentidos, todos devem poder tudo, respeitando, naturalmente, a regra de ouro de convívio, lembrando o Liber 77 divulgado por Crowley onde “o amor é a lei, amor sob vontade”. Dessa maneira é difícil concordar com qualquer tipo de extremismo e ditaduras autoritárias, sejam de direita ou de esquerda. Boa leitura aqui é “A Infelicidade do Século” de Alain Besançon e “As Origens do Totalitarismo” de Hannah Arendt. Mesmo com essa posição, sou tolerante ao máximo e tenho amigos de várias tendências políticas sem que eu me identifique, respeito a capacidade de compreensão delas assim como posso e devo evoluir meu próprio pensamento.

Apesar de parecerem o “ópio do povo”, todas as manifestações religiosas são importantes. Elas fazem parte de nosso substrato neural. Crenças em mundos e seres divinos além do mundo material está presente em todas as culturas, e nenhum sistema político autoritário jamais as conseguiu eliminar. Mas creio que temos o direito de criticar e refletir sobre as religiões. Elas não podem ser intocáveis e não deveriam manipular as pessoas através de seus medos e esperanças, deveriam abrir caminhos espirituais autênticos, além de pagar impostos!

Incluo muitas vezes em meus trabalhos visuais e musicais, aspectos obscuros e caóticos de nosso inconsciente. Quando criança, histórias infantis eram interessantes quando haviam bruxas, castelos, magos e dragões. É apenas uma estética divertida. Não acredito em seres demoníacos nem angelicais, são apenas formas arquetípicas, nós que damos vida, força e forma para essas energias capazes de nos fazer adoecer e também de nos curar. É ficção, licença poética, não é pra ser levada a sério ou teríamos que condenar Edgar Alan Poe, H.P. Lovecraft e todas as bandas de heavy metal com o mesmo imaginário e, inclusive, personagens como a Pantera Cor-de-Rosa e Tom & Jerry por serem “tão violentos”!

Lembrem que nunca vimos um diabo torturando alguém, mas em nome dele existiram as Cruzadas e a inquisição, esta uma das maiores formas de “peste emocional” que o mundo já presenciou (além de racista e misógina). As colonizações que ocorreram no Continente Americano, em nome de valores cristãos, sejam protestantes no Norte ou católicos no Sul, foram devastadoras para as culturas originais dessas terras (também um fenômeno racista). O estupro seguido de morte, implícito aqui, não é somente o físico, mas mental também. Esses sim foram literais no passado, como outros grupos religiosos o são na atualidade. 

Acredito que a Arte – em todas as suas modalidades – deve poder tudo, mesmo o “politicamente incorreto”, ou ela perderá sua característica maior de liberdade de expressão. Ninguém deveria se sentir ofendido por qualquer manifestação artística. Ninguém deveria se sentir ameaçado em sua cultura ou crenças por existirem quem pensa e sente diferente. Se um tipo de expressão te ofender, se não curtir, não veja, não ouça, faça a sua com a mesma liberdade, discuta, dialogue e cresça, use as mesmas “armas”. Crítica inteligente sempre é bem vinda, proibir não ajuda em nada e mantém a escuridão sobre temas tabu. Dar liberdade e não se importar, muitas vezes é a forma mais rápida de uma provocação perder a intensidade. O medo apenas nos torna covardes e, consequentemente, violentos.


Transmedia artist, associate professor  of  Unespar/EMBAP. Member of Cieba  of the School of Fine Arts, University of Lisbon (FBAUL). Jurisdictional Advisor of University International Rose+Croix (URCI). Member of the Wasiwaska Council – International Center for Research on Consciousness, Psychointegrating Plants and Visionary Art. Member of the Center for Interdisciplinary Studies on Psychoactive (NEIP) and of iNeuroPsi Institute. Researcher on Art and Non-Ordinary States of Consciousness (ENOC) – Visionary and Psychedelic Art.

Very early on life struck me as extremely strange and mysterious, having visions and lucid dreams from the age of five. At thirteen I read Lobsang Rampa and heard of Rosicrucionism from my mother. I even did astrology charts and physiognomonie readings, as well as incursions on kabala, alchemy, esotericism, and magic in general. I participated in therapeutic groups such as bioenergetics, personal de-programming (based on the Hoffman Process), Gestalt therapy, Rebirthing and Osho Meditations. I participated in a Gurdjieff Group, and for some time, I was a Movements facilitator. Later, seeking to understand the relationship of humans with the use of Plants-as-Teachers, I joined Centro Espítita Beneficente União do Vegetal  (UDV), where I worked in the Department of Documentation and Memory. I practiced yoga and did the Kundalini training course taught at Nanak Institute. For more than three decades I have been interested in extreme and alternative rock music, and guitar is one of my passions. I have related to painting and drawing since “always”; they have been part of my life as something far beyond art and are the focus of my current academic research.

I do not like polarizations, I believe in free thought and all the paradoxes that. I live in an utopian anti-prohibitionist struggle in every way; everyone should be free to do anything respecting, of course, conviviality’s golden rule, remembering Liber 77, by Crowley, where “love is the law, love under will.” Thus, it is difficult to agree with any kind of extremism and authoritarian dictatorships, whether of the right or of the left. Good reading on this is “The Unhappiness of the Century” by Alain Besançon and “The Origins of Totalitarianism,” by Hannah Arendt. Even holding this position, I am tolerant to the fullest and I have friends who hold various political views without having to identify myself with them; I respect their understanding capacity just as I can and must develop my own way of thinking.

Even though they seem to be the “opium of the people”, all religious manifestations are important. They are part of our neural substrate. Belief in divine beings and worlds beyond the material world is present in all cultures, and no authoritarian political system has ever managed to eliminate it. But I believe we have the right to criticize and reflect on religions. They should not be untouchable just as they should not manipulate people through their fears and hopes; they should open genuine spiritual paths, in addition to having to pay taxes!

I often include in my visual and musical works, obscure and chaotic aspects of our unconscious. As a child, children’s stories were interesting to me when there were witches, castles, wizards and dragons. It is just a fun aesthetics and at the same time an activist one. But I do not believe in demonic or angelic beings; they are only archetypal forms. We give life, strength and shape to these energies. It is fiction, poetic license that should to be taken literally or otherwise we would have to condemn Edgar Allan Poe, H.P. Lovecraft and all heavy metal bands and even the Pink Panther and Tom & Jerry “because they are so violent”! Remember that we have never seen a devil torturing anyone, but in his name the Crusades and the Inquisition were stared, being the latter one of the greatest forms of “emotional plague” that the world has ever seen (in addition to being racist and misogynist). The colonization that occurred in the Americas, in the name of misunderstood Christian values, whether Protestant or Catholic, in the North or in the South, was devastating to the original cultures of these lands (also a racist phenomenon). The rape followed by death, implied here, is not only physical, but also mental. These were rather literal in the past as other religious groups are today. 

I believe that Art, in all its forms, should be allowed everything, even the “politically incorrect”, or it will lose its greatest feature −freedom of expression. No one should feel offended by any artistic expression. No one should feel their culture or beliefs threatened because there are people who think and feel differently. If some kind of expression offends you, if you do not enjoy it, do not look at it, do not listen to it; make your own with the same freedom, discuss, engage in dialog and grow, use the same “weapons”. Intelligent criticism is always welcome; prohibition does not help in any way and only keeps taboo subjects in the dark. Give it freedom and do not mind it; sometimes this is the quickest way for a provocation to lose its intensity. Fear only makes us coward and, therefore, violent.

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Gurdjieff e os Cabelos!

Agora, faz quase meio século, nessa cidade de Paris, certos candidatos jassnamusses [1] idealizaram, para os seres do sexo feminino de lá, usar o cabelo curto, e fizeram grande alvoroço para difundir sua funesta invenção, graças a uns meios e uns procedimentos já solidamente experimentados entre eles.

Sem dúvida, como os sentimentos de moralidade e “patriarcalidade”[2] eram fortes ainda nessa época nos seres de sexo feminino da comunidade da França, eles não adotaram essa perniciosa invenção, e foram os seres do sexo feminino das comunidades que levam o nome de “Inglaterra” e de “América” os que começaram a cortar os cabelos.

Ao privarem-se assim, deliberadamente de uma parte delas mesmas, adaptada pela Grande Natureza com miras a certos intercâmbios de energia cósmica, os seres femininos dessas comunidades forçaram a Natureza a reagir suscitando resultados correspondentes que, no futuro, não deixará de tomar certas formas, análogas as que já surgiram duas vezes nesse planeta: a primeira vez no país de “Yuneano”, hoje Kafiristão, onde apareceram as chamadas “Amazonas”; a segunda vez na Grécia antiga, onde foi fundada a “religião da poetisa Safo”.

Enquanto isso, nessas comunidades atuais, a comunidade da “Inglaterra” e a comunidade da “América”, cortar o cabelo feminino engendrou por primeiro as “suffragettes[3] e, por segundo o que se chama de “Christian Science”, e os “clubes teosóficos”. Ademais, quando essa moda jassnamussiana do cabelo curto se difundiu por todas as partes, se observou – como eu soube através de um eterograma que me foi dirigido – um recrudescimento proporcional do que se chamam as “enfermidades femininas”, ou seja, diversas formas de inflamações dos órgãos sexuais, tais como “vaginitis”, “metritis”, “ovaritis”, assim como de fibromas e de câncer.

[…]

Agora bem, segundo as leis cósmicas que estou falando, essas fontes destinadas às transformações dos elementos ativos que servem de princípio passivo, jamais estão em liberdade de terem manifestações independentes, sejam quais sejam. Só podem gozar dessa independência as fontes destinadas à transformação dos elementos ativos que devem servir de “Santa Afirmação” ou de “princípio ativo” ao Triamazikamo sagrado.

Assim, pois, as fontes que servem de princípio passivo não podem ser responsáveis de suas manifestações; dito de outro modo, ela não podem ser “maiores”.[4]

Gurdjieff, G. I. (1978). Relatos de Belcebú a su Nieto – Critica Objetivamente Imparcial de La Vida de los Hombres (Livro Segundo, pag. 141-143). Editorial Ganesha. Caracas.


[1] Esses termos são livre criações gurdjieffianas. Os significados aparecem pelo texto.

[2] Gurdjieff se refere ao “amor a família” e o “pudor orgânico”.

[3] Movimento ativista feminista do final do século 19, início do século 20, relacionado à luta das mulheres para terem direito ao voto. Pouco, muito pouco tempo atrás!

[4] Semelhante a certas tradições Islâmicas em que a mulher não é considerada “maior de idade”.

PS: Coloquei esse post na intenção de mostrar algo curioso em relação ao esotérico. Há muita coisa que parece colocada de forma “politicamente incorreta” justamente por pessoas consideradas grandes pensadoras e com uma capacidade de entrar em contato com conhecimentos não disponíveis para a maioria dos mortais (nós). A Teosofia, interpretada por seus “conhecimentos sobre as raças” gerou ideias que, mesmo que eles discordassem totalmente dos resultados, puderam gerar uma Klu Klux Klan racista. Estaria o esoterismo, em várias camadas tradicionais, condenado a rever seus postulados como erros, ou estamos diante de uma nova incompreensão: “elétrons fazendo greve por se sentirem desprivilegiados em relação aos prótons?”, resultando numa possível desintegração do universo conhecido?

Arte e os Crimes de Plástico

Outro dia, olhando os trabalhos “lowbrow” de Ray Caesar (http://www.raycaesar.com/), pensei na fina linha que separava alguns trabalhos artísticos de crimes. Na biografia do artista consta que ele trabalhou como fotógrafo documentarista no Chidren’s Hospital of Toronto que atende casos de abuso infantil. Segundo o artista, a arte que ele faz, antes de ser uma ode à pedofilia, se trata de uma forma de redenção, isto é, a representação dessas crianças com aparência serena, fazendo face a essa ferocidade, aparentando aceitação e naturalidade, elas deixariam assim de serem as vítimas, até mesmo exercendo o controle da situação. Dessa forma essas pequenas almas atormentadas teriam um lugar melhor, um pequeno pedaço de céu ofertado por ele em seus trabalhos.

Isso me fez pensar em várias questões envolvendo a arte e uma tendência quase insuportável do “politicamente correto” nos dias de hoje. Como separar o “correto” do medroso e do hipócrita, mau humorado, ou, pior, da falta de entendimento do que seria correto mesmo? Refiro-me a todos os outros tipos de representações que envolvam imagens violentas, sexuais, pornográficas, de abuso, questões racistas, estupro, formas naturais e provocadas de morte e o que mais possa levantar dúvidas sobre o “correto” e os tabus de nossa cultura e de outras culturas. Mas, na verdade, não é só a questão do “correto” que me chama atenção, e sim, se a tal liberdade de expressão pode existir mesmo nos casos “incorretos”. Eu acho que deveria sim, por isso dei o título de “Os Crimes de Plástico” (*), pois deveriam ser só isso mesmo, a morte de plástico, o sexo de plástico, tudo de plástico, como em muitos filmes que por aí. Funcionariam sempre como reflexão e curiosidade em relação a como o outro sente ou pensa, suas influências culturais, seus desvios, mas desde que não passe disso.

Vivemos em uma época que o “politicamente correto” atende as exceções, não aos fatos de maneira geral. Será que a maioria dos padres é mesmo pedófila? É possível generalizar assim? Creio que não. Mas hoje tome cuidado em manifestar carinho por uma criança, podem ficar com muito medo e desconfiados de você. Se você for médico, certifique-se que na consulta sempre tenha um terceiro junto, uma enfermeira ou secretária, pois você pode ser acusado de algum ato impróprio. Cuidado quando falar de cores, pode ser interpretado como algo de tendência racista. Se você é professor, cuidado com o tratamento com alunos/as, pois pode ser acusado de assédio. Mesma coisa com colegas de trabalho. Cuide com as piadas. E assim por diante…

E fico pensando quanta mudança já aconteceu nas sociedades. O livro “A Sombra de Dionísio” do Maffesoli é bem informativo a respeito. Muitos tabus sobrevivem no underground até que subam e sejam encarados como “normais” pela sociedade. A mulher votar já foi tabu, ter controle e decisões sobre seu próprio corpo ainda é uma conquista. A nudez é um tabu, posso vender revistas para satisfazer essa curiosidade, mas para um índio não fará muito sentido. O homossexualismo aos poucos abre espaço e é aceito sem tanto trauma, deixou de ser doença, mas em alguns lugares do mundo é crime e se pune com a morte, durante muito tempo se pensava em tratamentos psicológico (!).  O uso de psicoativos como a ayahuasca no Brasil é permitida a grupos religiosos e se discute se é droga, em alguns países a pena é a mesma dada para substâncias como a cocaína, é considerado tráfico e da prisão sem fiança.

Não que um estupro tenha que ser considerado normal, dois cientistas até fizeram pesquisas a esse respeito no livro A Natural History or Rape – Biological Bases of Sexual Coercion de Randy Thornhill e Craig T. Palmer, editado pelo MIT, mas não significa que deva ser uma prática aceita, ninguém quer ser estuprado de verdade (sabe-se que em fantasias não é tão incomum), então tem que existir controle penal sobre essas coisas, mesmo que fossem “instintos naturais”. Já os pesquisadores que citei, não cheguei a ler o livro, parece que nunca mais puderam dar palestras sem perigo de serem agredidos! É como disse Bertrand Russel: “infringir crueldade com a consciência em paz é um deleite para os moralistas – foi por isso que eles inventaram o inferno”, assim não sentem culpa em levar o outro para a fogueira, vide a Santa Inquisição, as Guerras contra o Terror, os fundamentalismos religiosos, etc. Mas não se trata de defender o “crime”, um leão come gente, sem problema, é natural, não é crime, nem por isso as grades do zoológico estão abertas…

Nessa linha que estou falando, lembro do Robert Crumb, famoso desenhista de HQ plenamente atuante ainda. Há uns quadrinhos de incesto que acaba com a frase “devíamos fazer mais vezes isso em família”, simplesmente hilário, não é pra levar a sério. E tem outras histórias mais “escabrosas” ainda, como algumas do Mister Natural e um bebê gigante. Quem quiser ver que procure (risos). É tão insano que também não pode ser levado a sério. Crumb faz uma provocação quase terapêutica, catártica, em cima dos tabus mais básicos da nossa sociedade, o considero um gênio por essa capacidade. Se chocar com isso é puro falso moralismo, pois essas coisas não estão em questão de forma alguma no “mundo real”. Outro artista que trabalha questões de sexo e violência é o Trevor Brown e pode ser encontrado nesse link http://www.pileup.com/babyart/_top.htm.

Acho que as pessoas, bem intencionadas, ponderarão: “mas será que essa liberdade não influenciaria o comportamento das pessoas”? Acho que influenciaria tanto quanto qualquer fantasia, as pessoas sabem que se trata de fantasia. Falaram tanto no malefício dos videogames violentos, mas as crianças sabem que aquilo é de “plástico”. Eu brinquei muito com pistolas imitação das reais (hoje proibidas no Brasil), dei centenas de tiros em meus amigos, jamais me passou pela cabeça em comprar revólver de verdade para ficar dando tiros nos outros depois de adulto. As causas que levam aos crimes são bastante diferentes na história de cada caso, não culpemos as fantasias, não culpemos a arte.

Concluindo, liberdade absoluta de expressão é a melhor forma de conhecermos esse ser complexo que é o humano. Primeiramente vamos parar de fingir que o ser humano é saudável (risos). Quem não quiser, que não veja, evite, procure não se identificar, mas acho que sabemos muito pouco sobre nossa complexidade humana, biológica e cultural, estamos condicionados a padrões, limitados na ação e expressão e isso sim me parece mais próximo de causar patologias. A arte, acima da ciência nesse sentido, deve ter o direito desse devaneio nos tabus e ver o que sobra disso. Parece-me menos hipócrita e, reafirmando minha crença, não creio que a arte induza a nenhum tipo de crime, por si só ela já é uma catarse, justamente o que está sendo representado ali, talvez não vaze para o mundo.

(*) Essa expressão ouvi pela primeira vez de um grande artista e amigo: Celso Júnior.

Ceci n’est pas une peinture

Ramachandran e seu cérebro

Como separar produção artística de nossa massa gelatinosa?
Arte pela arte possui uma epistemologia própria? Ou o ser humano* produz arte? (* com todas as implicações do termo…)
Achei divertida as colocações do Ramachandran sobre Freud, acho que isso também mostra o quanto necessitamos revisões na psicologia terapêutica.
Enfim, não é um vídeo discutindo arte e neurociências, pra mim serve de reflexão interdisciplinar, pois tenho visto dificuldades nas pesquisas devido a algumas instituições limitarem a discussão em arte de forma disciplinar, para mim isso é de um reducionismo simplista diante do “ser que produz arte”.
Não consegui colocar o vídeo aqui, mas deixo o link pra quem se interessar (tem legenda em português).

Ramachandran_on_your_mind

A razão pura não existe: nós pensamos com o nosso corpo e nossas emoções.

A Farsa da Consciência

De que tipo de consciência estamos falando? De um estudo científico sobre a psique humana, o dualismo entre corpo e alma (cérebro/mente), neurociências, etc., ou de questões como a moral, “sentido do que é certo ou errado”, ou a suposição de que a medida que se “evolua” em relação a consciência nos tornaremos “superiores”, isto é, mais espiritualizados, solidários, bonzinhos, de um tipo de moral elevada, pois são coisas completamente diferentes.

Se formos em direção aos estudos cérebro/mente, teremos que fazer frente a uma enorme série de teorias contraditórias, entrar em um campo novato, pouco conhecido, de difíceis acordos entre os especialistas. Não há espaço aqui pra isso. Mas o que quero mostrar aqui são alguns enganos básicos nesses estudo sobre consciência. Primeiramente porque o ser humano não tem UMA consciência. Freud e Jung, por exemplo, cada um de seu modo, desenvolveram o conceito de inconsciente. Jung nos fala de um inconsciente pessoal e outro coletivo. O Freud inicial fala de um inconsciente como um receptáculo de conteúdos recalcados (cito esses psicólogos por serem pioneiros, muita coisa se renovou depois deles). Mas isso é a ponta do iceberg. Williams James se refere à necessidade de se levar em conta outras consciências:

Nossa consciência vigilante normal, a denominada consciência racional, não é mais do que um tipo especial de consciência separada de outros tipos de consciência completamente diferentes pela mais fina das camadas… Nenhuma descrição do Universo em sua totalidade que deixe essas outras formas de consciência no esquecimento poderá ser efetiva.

A ilusão de que se pode viver de um modo coerente, com uma única consciência grudada com goma de mascar em algum centro da personalidade é no mínimo inocente, ignorante, se não propositalmente maldosa. Voltaire comparou certa vez um homem em dois estados diferentes, um quando ele está constipado, outro quando ele está com diarréia. No primeiro caso o infeliz certamente estará mal-humorado, enfezado (isso mesmo, cheio de fezes). Já na diarréia ele se tornará lânguido, pois nesse estado a química não ajuda muito a agressividade. E, segundo Voltaire, essa é a pretensão humana de ser a imagem de Deus: sentado numa privada, tendo seus estados de humor regulados por seus intestinos. Mas o que tem a ver isso com a consciência? Tudo. Somos seres que ficamos diferentes – trocamos nossa forma de interpretar e sentir – pelos motivos mais banais. Você se promete ser bom, basta levar uma fechada no trânsito, entrar em uma discussão com a mulher, patrão, filhos, a mosca que cai na sopa e pronto, diversos personagens seus, que são vocês, aparecem do nada. Seu controle sobre eles é mínimo na hora, depois você quer se matar de raiva de “ter se traído”. Somos uma legião de pessoas internamente, além de que nosso corpo, mente, intelecto e emoções, nem sempre estão de acordo com o que querem e precisam. Em situações semelhantes em um momento somos valentes gritões, noutra covardes e trêmulos, outras ainda estamos de TPM ou diarréia. Não conseguimos ser os mesmos diante de pessoas diferentes e, se você nunca reparou nisso, seu estado de consciência sobre você mesmo é mínimo, que vergonha!

Uma das formas de pesquisa que colabora muito na área são os estudos sobre os estados não ordinários de consciência (que chamo ENOC). Estuda-se sobre o funcionamento do cérebro e sobre a atuação dele tanto como receptor tanto como válvula redutora da percepção (ver Huxley, Hangcock). Os ENOC são considerados estados legítimos de consciência atualmente. Não são mais considerados deformações, alterações ou distorções do estado comum de consciência “normal”. Como comentei em outra postagem, várias técnicas religiosas como meditações, jejuns, celibato, danças, rezas, tambores xamânicos, etc., são capazes de levar a estados especiais de consciência. Certos psicoativos têm a mesma propriedade, agem no cérebro diminuindo o poder de válvula redutora dele, dando chance da ciência compreender diversos fenômenos da consciência, inclusive muitos dos que estão relacionados aos chamados estados místicos, no qual a natureza humana acaba criando mitos e religiões (Rick Strassman tem um belo estudo a respeito – DMT-The Spirit Molecule).

Naturalmente, falar de psicoativos provocará em alguns imediato preconceito e medo. Sim, é um problema mesmo, mas nada comparado com algo chamado ignorância, pois do que, da qual estamos falando? No Brasil aproximadamente 25.000 pessoas usam Ayahuasca para fins religiosos (sem falar nas aprox. 70 tribos de índios que a usam como medicina e religião durante séculos – ver Reichel-Dolmatoff, Schultes & Hoffman, Lux Vidal, etc), perfeitamente integrados na sociedade, nas suas famílias e seus trabalhos e, plenamente legais juridicamente. Legalização essa que ocorreu com pesquisas científicas do mais alto nível que confirmaram as características inócuas da bebida em questão (levada a cabo com cientistas como Charles Grob, Jace Callaway, Dennis Mckenna e Rick Strassman. Há muita informação em autores como Beatriz Labate, Ralph Metzner, Benny Shanon, Luis Eduardo Luna, etc, etc). Descartar o tema por preconceito, “não devemos falar sobre o ‘Santo Daime‘” em discussões sobre ciência da consciência é um preconceito, uma segregação ideológica, tendenciosa, movida por segundas intenções, jamais limpa ou honesta e, muito menos, científica. Dessa forma, nós sim, sentimos que isso se opera como uma forma velada de violência…

Outro erro gigante sobre a consciência está no sentido moral que atribuem a ela. Jung falava da necessidade do indivíduo integrar na personalidade seus lados obscuros, a sombra. Recalques, repressões, “auto-controle”, não são espiritualidade e sim, política, serve para manter as aparências ou manipular os demais. Tampouco é sair dando socos, é usar essa energia com outro tipo de sabedoria, sem “entupí-la”. Muitas pessoas que se aproximam da espiritualidade acham que devem mudar, mas mudanças reais não se tratam de “política”, nem de trocas de condicionamentos e hábitos, mudanças só serão reais se você não precisar recalcar nada e simplesmente ser. Nesse caso, melhor é ser “mundano”, aquele que está no mundo, pois há um sentido nas experiências de estarmos aqui, dos nossos conflitos, irritações, desejos e dúvidas, mais do que em fantasias místicas e recompensas no paraíso. Isso é o que se chama auto-conhecimento e da coragem necessária para viver o que se é (e os seres humanos seriam muito melhores se assim o fizessem e permitissem, pois poderiam “passar por” sem ficarem presos em recalques). Recalcar e passar por “evoluído” não engana os outros por muito tempo, só a você mesmo. Não é a toa que qualquer julgamento sobre o outro está fadado a ser preconceito e erro apenas. Ninguém sabe sobre você melhor do que você mesmo e do que você precisa.

A religião foi o primeiro sistema que utilizou o conhecimento místico para segregar as pessoas. “Sacerdotes” se colocam em uma hierarquia superior, guiando rebanhos como se fossem diferentes ou superiores. Sabemos o que o mundo tem passado em nome de Deus e disputas religiosas de todos os tipo (DeusUm Delírio de Richard Dawkins):

Infringir crueldade com a consciência em paz é um deleite para os moralistas – foi por isso que eles inventaram o inferno (BERTRAND RUSSEL apud PINKER 2004, 368).

O ser humano não precisa de nenhum tipo de religião para ser solidário com o outro, nenhum tipo de regulação moral ou de conselhos piegas. Não necessitamos de nenhuma invenção sobre “estudos de consciência” com fins de manipulação em nome de um mundo melhor, muito menos um circo quântico tão em moda!

Nas questões da “consciência moral”, olhar a dinâmica da natureza pode ensinar muito sobre nós mesmos, não há nada de bonzinho ou mauzinho ali, é como deve ser, como foi criado ou como evoluiu, não importa. Nossa sina é matar para viver, seja animal ou vegetal. Aceitar o que se é, aprender a ver mais profundamente a si mesmo, não falsificar mudanças internas, nossos defeitos podem ser nossas melhores qualidades (parafraseando Nietzsche), deixará por terra uma série enorme de falsos ídolos. Não é fácil, é o caminho do herói pelos perigos do labirinto em direção ao centro… sozinho. Como diria JOSEPH CAMPBELL, é o jogo da vida que temos que participar. Então, ter algumas portas fechadas podem acontecer, desistir não, mas bater nas portas certas…

Tabula Rasa

O texto abaixo é um pequeno recorte de um capítulo que se encontra no livro Tabula Rasa – A Negação Contemporânea da Natureza Humana – de Steve Pinker, professor de psicologia de Harvard, especialista em Ciências Cognitivas, ex-professor do MIT (um dos maiores centros de pesquisa do planeta) e que traz em seu livro algumas reflexões sobre Arte e Natureza Humana.

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Embora as formas exatas de arte variem muito entre as culturas, as atividades de criar e apreciar arte são reconhecíveis em toda a parte. O filósofo Denis Dutton identificou sete assinaturas universais:

  1. Perícia ou virtuosismo. Habilidades artísticas técnicas são cultivadas, reconhecidas e admiradas.
  2. Prazer não utilitário. As pessoas apreciam a arte pela arte, e não requerem que ela as mantenha aquecidas ou que lhes ponha comida na mesa.
  3. Estilo. Objetos e representações artísticas satisfazem regras de composição que as situam em um estilo reconhecível.
  4. Crítica. As pessoas fazem questão de julgar, avaliar e interpretar obras de arte.
  5. Imitação. Com algumas importantes exceções como música e pintura abstrata, as obras de arte simulam experiências do mundo.
  6. Enfoque especial. A arte é distinguida da vida comum e dá um enfoque dramático à experiência.
  7. Imaginação. Artistas e seus públicos imaginam mundos hipotéticos no teatro da imaginação.

As raízes psicológicas dessas atividades recentemente tornaram-se tema de pesquisas e debates. Alguns pesquisadores, como a acadêmica Ellen Dissanayake, acreditam que a arte é uma adaptação evolutiva, como a emoção do medo e a capacidade de ver em profundidade. Outros, como eu, acreditam que a arte (exceto a narrativa) é um subproduto de outras três adaptações: a ânsia por status, o prazer estético de vivenciar objetos e ambientes adaptativos e a habilidade de elaborar artefatos para atingir os fins desejados. Desta perspectiva, a arte é uma tecnologia de prazer, como as drogas, o erotismo e a culinária refinada – um modo de purificar e concentrar estímulos prazerosos e enviá-los aos nossos sentidos (PINKER 2004, 546).

–> Para ler um pouco mais sobre Steve Pinker, além do site, saiu na Folha de São Paulo uma interessante entrevista com ele e o escritor McEwan aqui.

(Interessante refletir que praticamente apenas nas Artes Visuais algumas coisas “estranhas” acontecem, isto é, você já viu um malabarista apenas deixando cair os malabares? Sim, isso, malabarismo “pós-moderno”. Parece familiar com muitas produções “contemporâneas” de Artes Visuais? Coisa pra se refletir, não? Há muita coisa boa, interessante e importante na arte atual, mas tem muita imitação duchampiana fraca por ai :D).

Malditos Vegetarianos!

Não, não se trata de nada disso.

O fato é que somos fadados pela Mãe Natureza a viver, desde que matemos algo, seja animal ou vegetal, alguém tem que morrer.

E tampouco se trata da posição na escala evolutiva, não há seres vivos superiores uns aos outros.

Não teime, não há.

Somos uma cadeia, um sistema, interdependentes e, o “pior”, nossa estrutura vital básica é similar, todos temos o mesmo DNA, isto é, algumas combinações de letras, textos diferentes, apenas isso, mas não dá pra dizer “superior”, apenas mais complexo talvez.

Tenho pena dos animais que comemos, não só pelo confinamento e maus tratos que recebem, tenho pena também dos que fogem amedrontados, adrenalinados diante de um ataque de leões, hienas, lobos, cachorros ou gatos… já repararam a resignação quando são finalmente alcançados? É comovente, quase como uma rendição a uma determinação, essa sim, superior…

Os vegetais não gritam, pelo menos não ao alcance do ouvido humano. Nunca ouvi nenhum me xingando tampouco. Porém desenvolvem defesas, é óbvio que não querem morrer. O fato do grito ser silencioso não nos dá esse direito, talvez não o tenhamos mesmo, mas se não matarmos nem a alfacezinha, morremos nós.

Daí vem aquele pessoal que diz que ouvindo Heavy Metal (gostei dessa!) as plantas até se desenvolvem mais. Puxa, quer dizer que logo descubro que elas também sabem que as matamos e se magoam com isso!

E quanta discussão tola a respeito de comprimentos do intestino humano e de sua arcada dentária…

E não adianta se rebelar. Somos feitos para sentir tudo que interessar para a natureza aumentar o número de DNAs no planeta, algum propósito evolucionista que ainda me escapa ao mesmo tempo que me é evidente. Olhe lá a garota gostosa, olhe lá o garotão, pronto, mais DNAs por ai, simples como isso, você é mero cumpridor de expectativas naturais, e se acha o máximo no meio disso, tsc,tsc, tsc!

Ser humano, ser consciente, é complicado, só resta crer firmemente na reencarnação e que tudo não passa de um mal entendido, está tudo certo, nada morre na verdade. Ou escapar pela ciência, nada se perde, nada se cria, tudo se transforma, seja vegetal ou animal…