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Arte e Consciência

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AYA – AVATAR (filme)

AYA - AVATAR (o filme)

Parte das informações do texto abaixo foram retiradas de um interessante artigo de Ido Hartogsohn, Avatar: The Psychedelic Worldview and the 3D Experience, do artigo Aya Avatar: Drink the Jungle Juice de Erik Davis (grato Zarko!) e vale a pena ver o do Richard Meech Sacred brews, secret muse (thanks Bia!). Também há bastante informação, não sobre o filme, mas sobre as experiências, no meu trabalho Arte Visionária e Ayahuasca.

O filme Avatar faz parte de uma cultura que podemos chamar psicodélica ou visionária. O termo psicodélico foi praticamente abandonado devido às associações “perigosas” com os anos 1960 e o uso do LSD (quem proibiu essa “perigosa” substância estava mais preocupado em acabar com os pacifistas alucinados e continuar com a saudável causa da guerra no Vietnam). Já a Cultura Visionária vai mais além, vem renovada científica e tecnologicamente, abordando também o uso de substâncias psicoativas, principalmente da classe phantastica, na classificação de Louis Lewin, vulgarmente os “alucinógenos”. Há tentativas de se trocar o termo alucinógeno por “enteógeno” – aquilo que desperta a experiência divina interna -, como mais uma forma de escapar dos preconceitos.

Thimothy Leary, o “pai” do psicodelismo era um entusiasta do personal computer nos anos 1980. Terence McKenna, outro pensador do psicodelismo, foi defensor da realidade virtual e da internet nos anos 1990. McKenna defendia que a estética psicodélica tem sido constantemente assimilada pelas tendências da mídia. De fato, com os desenvolvimentos tecnológicos, os sistemas digitais possuem cada vez melhor resolução, uso de cores brilhantes, a multisensorialidade, os audiovisuais, videoclipes, a tecnologia em 3D gerada por computadores[1], trouxeram a possibilidade de imersão, pelo menos uma simulação, da experiência psicodélica. Claro, pode não ser a mesma coisa, mas é impressionante. Talvez alguns aqui tenham assistido o filme Viagens Alucinantes (Altered States de Ken Russel – 1980), onde aparece a tecnologia, testada pelo cientista John Lilly em 1954, de imersão em um tanque de água para induções de estados não ordinários de consciência (ENOC). Outro filme que mostra simulação similar é o Matrix, assim como o isolamento no filme Avatar.

Minha experiência particular foi assim: logo de início assistimos os trailers de algumas animações e do filme, mais do que psicodélico, Alice no País das Maravilhas. Apesar de já conhecer a tecnologia 3D, ali no IMAX foi uma imersão maior, suficiente para eu me sentir, de certa forma, “modificando” minha consciência, uma pequena insegurança, uma mareação leve, tensão geral, mas que fui relaxando sabendo que o segredo é não resistir! 😀

O visual do filme é realmente fabuloso, as luzes, a mata, as árvores, os seres, as plantas, concepções geniais de tudo. Vendo isso pensei que pintar era a coisa mais sem graça do mundo, que deveria me dedicar apenas às imagens sintéticas no computador, mas fui salvo em seguida. Não sei se eles colocaram os créditos, mas aquelas montanhas flutuantes, gigantescas, com cachoeiras caindo no vazio, são do Patrick Woodroffe, um dos pintores de fantasia que mais me deliciam e que é ainda pouco conhecido. Apesar dos limites da tinta, a pintura visionária serve como inspiração em todos os níveis, tradicionais ou tecnológicos e, claro, muito pintores visionários como o Pablo Amaringo, Alex Grey, etc., são exemplos da importância dessa forma de expressão.

Algumas imagens do filme são clichês, ou melhor, são como são, são daquele jeito mesmo. Por exemplo, passar por túneis quando se está entrando nos estados não ordinários de consciência é uma experiência muito relatada. Mas vamos encontrar mais algumas semelhanças com a experiência da ayahuasca em si. O filme fala de Eywa (se não me engano, muito próximo da pronúncia em inglês de aya). Ela é chamada “Árvore das Almas”, ayahuasca significa “Cipó das Almas”. Os primeiros pesquisadores chamaram a ayahuasca de “telepatina”, devido à estranha capacidade que os nativos tinham em se comunicar quando inebriados com a bebida. A árvore Eywa funciona como uma central ligada em rede com tudo que é vivo no planeta. Ela guarda toda a ancestralidade, a memória dos nativos. Plantas terem espírito, serem divinas, ensinarem, faz parte de inúmeras culturas no mundo e, claro, dos povos da Amazônia também. A presença dos xamãs no filme, usando Eywa como aliada nos processos de cura e da religiosidade da tribo, nos remete, da mesma forma, às práticas do xamanismo amazônico.

O filme, infelizmente, não é apenas fantasia. Aliás, dentro da cultura visionária, assim como da psicodélica, as experiências desse “outro mundo” muitas vezes são sentidas como mais verdadeiras do que “desse” mundo, exatamente como é mostrado por Jake Sully no filme. Mas o que digo que infelizmente não é fantasia, é o fato de que, pelos mesmos motivos apresentados no Avatar, estamos devastando a Amazônia. Seja para mineração, seja para criação de gado (dá vontade mesmo de parar de comer carne!). Eu lembro quando mostravam a abertura da Transamazônica, aquelas Samaumas sendo derrubadas, e parecia algo tão sensacional, minha mente infantil não tinha consciência… agora vejo com horror que isso ainda acontece. Nosso governo pensa sobre a Amazônia “vamos abrir um pouco mais, precisamos dessa demanda, riqueza, mas só mais um pouquinho…”, mas continuamos nos reproduzindo cara pálida, vamos precisar SEMPRE MAIS, temos que parar a exploração agora! Pena que não temos um povo realmente forte lá. Muitos dos que temos estão aceitando de bom grado coca-cola e jeans, não é mesmo? Além de que as supostas ONGs protecionistas, me dão impressão de tremendas armadilhas, tomara que eu esteja enganado. Quem quiser ver um pouco do que se passa, pode ver na internet algumas reportagens de Bruce Parry. Algo que, particularmente me deixou impressionado com o delicado sistema ecológico amazônico foi o Kambô, uma vacina que os índios usam para tirar a panema (má sorte em geral). Ela é produzida a partir da secreção de uma rã, a Phyllomedusa bicolor e aplicada na pele sobre pequenos orifícios abertos nela por um cipozinho com brasa na ponta. O curioso é que as propriedades da secreção da rã estão diretamente ligadas à sua dieta, um tipo de formiga com uma picada extremamente dolorida. Sem essa dieta, a secreção não funciona. O cipozinho que os índios usam nasce das pernas dessa formiga. Bom, pelo menos é o que os índios dizem. De fato, as formigas carregam as sementes desse cipó nos seus caminhos pelos galhos das árvores, é natural que dê essa impressão. Qualquer desequilíbrio, adeus Kambô. Há patentes alemãs, japonesas, sobre as propriedades da secreção da rã, dizem que é 2000 vezes mais forte que a morfina, mas, parece que patentes brasileiras não há nenhuma.

A história do filme em si, como a crítica comentou, é o modelo de trama bastante comum, o vilão, o herói, um romance, parece que tudo vai perder-se e, por fim, uma solução esperada de antemão por todos. O visual, como comentei, psicodélico, visionário, da melhor qualidade, muito bem feito, tecnologia de ponta em computação gráfica. Mas ver o filme por essas qualidades é pouco, pois é possível, através de nossa natural capacidade em aceitar o sobrenatural, sentirmos o sagrado se manifestando ali… enfim, psicodélico…que significa “aquilo que revela ou manifesta a alma”. Pra quem gosta, um bom prato, eu repetirei com certeza.

Recomendo a leitura dos links acima, pois não quero me alongar e tem muito mais informação interessante sobre o filme e o que se entende aí por psicodelismo e cultura visionária. Boa leitura!


[1] Nos anos 1970 assisti filmes 3D exatamente com a mesma tecnologia atual de polarização com óculos especiais, acredito que os filmes não se popularizaram por causa que é bem mais complicado processar 3D com filme de película do que com os digitais disponíveis agora.

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NOSIS – Ayahuasca e Xamanismo [Filme]

Para todos interessados em xamanismo e ayahuasca, em breve será lançado o filme NOSIS:

Seeking truth and healing, and guided by an Amazonian shaman, NOSIS is a journey into the depths of soul.

Spanning the Americas, NOSIS is a cinematic vision quest to uncover the mysteries of consciousness.

It is a paradigm shift into the altered state of Biospheric TV, where an infinite channel universe of life and consciousness is surfed in a search for personal and global transformation.

Sem dúvida vivemos em um grande momento onde essas discussões correm o mundo. Para nós, brasileiros, é um privilégio, pois temos aqui pelo país muitas religiões ayahuasqueiras, pesquisadores nas universidades, escritores, grupos independentes, deixando fácil o acesso a todos que quiserem conhecer mais sobre o assunto.

O diretor Jim Sanders conhece o Brasil e já fez tomadas aqui para outros filmes seus. Outros links interessantes desse diretor estão abaixo:

http://www.youtube.com/nosistv

http://www.youtube.com/dadaworlddata

http://centreportal.blogspot.com/

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Painel Cultural de Arte Visionária

Boom Festival 2008, Portugal

(Video com perguntas e respostas sobre Arte Visionária).

Liminal Media Stream Presented by the Elvish Nation, Pod Collective, Elfintome and Crystal and Spore, this historic panel connects key art culture creators from North America, Europe and Asia. Exploring the role and place of art in the new culture, this is a tributary in a 120 hr curriculum confluence featuring over 30 presenters and artists from 23 countries. Over the course of a week the liminal village conference and gallery hosted many of the 30,000 festival goers from 80 countries.

For details on printed media that compliments this experience, contact delvin@crystalandspore.com.

Visionary Art Culture Creators Panel

CONCEPT STEWARD AND MC : Delvin Solkinson

DJ : Naasko Wripple

VJ : Sijay James

FILMED BY : Mari Asada

ART PANEL:

Leo Plaw

Luke Brown

Carey Thompson

Andrew Jones

Zariat

Laurence Caruana

boomfestival.org

podcollective.com

elfintome.com

visionaryrevue.com

lila.info elvism.net

higherglyphiks.com

lightscience.ca

r6xx.com

beinart.org

artofimagination.org

A Farsa da Consciência

De que tipo de consciência estamos falando? De um estudo científico sobre a psique humana, o dualismo entre corpo e alma (cérebro/mente), neurociências, etc., ou de questões como a moral, “sentido do que é certo ou errado”, ou a suposição de que a medida que se “evolua” em relação a consciência nos tornaremos “superiores”, isto é, mais espiritualizados, solidários, bonzinhos, de um tipo de moral elevada, pois são coisas completamente diferentes.

Se formos em direção aos estudos cérebro/mente, teremos que fazer frente a uma enorme série de teorias contraditórias, entrar em um campo novato, pouco conhecido, de difíceis acordos entre os especialistas. Não há espaço aqui pra isso. Mas o que quero mostrar aqui são alguns enganos básicos nesses estudo sobre consciência. Primeiramente porque o ser humano não tem UMA consciência. Freud e Jung, por exemplo, cada um de seu modo, desenvolveram o conceito de inconsciente. Jung nos fala de um inconsciente pessoal e outro coletivo. O Freud inicial fala de um inconsciente como um receptáculo de conteúdos recalcados (cito esses psicólogos por serem pioneiros, muita coisa se renovou depois deles). Mas isso é a ponta do iceberg. Williams James se refere à necessidade de se levar em conta outras consciências:

Nossa consciência vigilante normal, a denominada consciência racional, não é mais do que um tipo especial de consciência separada de outros tipos de consciência completamente diferentes pela mais fina das camadas… Nenhuma descrição do Universo em sua totalidade que deixe essas outras formas de consciência no esquecimento poderá ser efetiva.

A ilusão de que se pode viver de um modo coerente, com uma única consciência grudada com goma de mascar em algum centro da personalidade é no mínimo inocente, ignorante, se não propositalmente maldosa. Voltaire comparou certa vez um homem em dois estados diferentes, um quando ele está constipado, outro quando ele está com diarréia. No primeiro caso o infeliz certamente estará mal-humorado, enfezado (isso mesmo, cheio de fezes). Já na diarréia ele se tornará lânguido, pois nesse estado a química não ajuda muito a agressividade. E, segundo Voltaire, essa é a pretensão humana de ser a imagem de Deus: sentado numa privada, tendo seus estados de humor regulados por seus intestinos. Mas o que tem a ver isso com a consciência? Tudo. Somos seres que ficamos diferentes – trocamos nossa forma de interpretar e sentir – pelos motivos mais banais. Você se promete ser bom, basta levar uma fechada no trânsito, entrar em uma discussão com a mulher, patrão, filhos, a mosca que cai na sopa e pronto, diversos personagens seus, que são vocês, aparecem do nada. Seu controle sobre eles é mínimo na hora, depois você quer se matar de raiva de “ter se traído”. Somos uma legião de pessoas internamente, além de que nosso corpo, mente, intelecto e emoções, nem sempre estão de acordo com o que querem e precisam. Em situações semelhantes em um momento somos valentes gritões, noutra covardes e trêmulos, outras ainda estamos de TPM ou diarréia. Não conseguimos ser os mesmos diante de pessoas diferentes e, se você nunca reparou nisso, seu estado de consciência sobre você mesmo é mínimo, que vergonha!

Uma das formas de pesquisa que colabora muito na área são os estudos sobre os estados não ordinários de consciência (que chamo ENOC). Estuda-se sobre o funcionamento do cérebro e sobre a atuação dele tanto como receptor tanto como válvula redutora da percepção (ver Huxley, Hangcock). Os ENOC são considerados estados legítimos de consciência atualmente. Não são mais considerados deformações, alterações ou distorções do estado comum de consciência “normal”. Como comentei em outra postagem, várias técnicas religiosas como meditações, jejuns, celibato, danças, rezas, tambores xamânicos, etc., são capazes de levar a estados especiais de consciência. Certos psicoativos têm a mesma propriedade, agem no cérebro diminuindo o poder de válvula redutora dele, dando chance da ciência compreender diversos fenômenos da consciência, inclusive muitos dos que estão relacionados aos chamados estados místicos, no qual a natureza humana acaba criando mitos e religiões (Rick Strassman tem um belo estudo a respeito – DMT-The Spirit Molecule).

Naturalmente, falar de psicoativos provocará em alguns imediato preconceito e medo. Sim, é um problema mesmo, mas nada comparado com algo chamado ignorância, pois do que, da qual estamos falando? No Brasil aproximadamente 25.000 pessoas usam Ayahuasca para fins religiosos (sem falar nas aprox. 70 tribos de índios que a usam como medicina e religião durante séculos – ver Reichel-Dolmatoff, Schultes & Hoffman, Lux Vidal, etc), perfeitamente integrados na sociedade, nas suas famílias e seus trabalhos e, plenamente legais juridicamente. Legalização essa que ocorreu com pesquisas científicas do mais alto nível que confirmaram as características inócuas da bebida em questão (levada a cabo com cientistas como Charles Grob, Jace Callaway, Dennis Mckenna e Rick Strassman. Há muita informação em autores como Beatriz Labate, Ralph Metzner, Benny Shanon, Luis Eduardo Luna, etc, etc). Descartar o tema por preconceito, “não devemos falar sobre o ‘Santo Daime‘” em discussões sobre ciência da consciência é um preconceito, uma segregação ideológica, tendenciosa, movida por segundas intenções, jamais limpa ou honesta e, muito menos, científica. Dessa forma, nós sim, sentimos que isso se opera como uma forma velada de violência…

Outro erro gigante sobre a consciência está no sentido moral que atribuem a ela. Jung falava da necessidade do indivíduo integrar na personalidade seus lados obscuros, a sombra. Recalques, repressões, “auto-controle”, não são espiritualidade e sim, política, serve para manter as aparências ou manipular os demais. Tampouco é sair dando socos, é usar essa energia com outro tipo de sabedoria, sem “entupí-la”. Muitas pessoas que se aproximam da espiritualidade acham que devem mudar, mas mudanças reais não se tratam de “política”, nem de trocas de condicionamentos e hábitos, mudanças só serão reais se você não precisar recalcar nada e simplesmente ser. Nesse caso, melhor é ser “mundano”, aquele que está no mundo, pois há um sentido nas experiências de estarmos aqui, dos nossos conflitos, irritações, desejos e dúvidas, mais do que em fantasias místicas e recompensas no paraíso. Isso é o que se chama auto-conhecimento e da coragem necessária para viver o que se é (e os seres humanos seriam muito melhores se assim o fizessem e permitissem, pois poderiam “passar por” sem ficarem presos em recalques). Recalcar e passar por “evoluído” não engana os outros por muito tempo, só a você mesmo. Não é a toa que qualquer julgamento sobre o outro está fadado a ser preconceito e erro apenas. Ninguém sabe sobre você melhor do que você mesmo e do que você precisa.

A religião foi o primeiro sistema que utilizou o conhecimento místico para segregar as pessoas. “Sacerdotes” se colocam em uma hierarquia superior, guiando rebanhos como se fossem diferentes ou superiores. Sabemos o que o mundo tem passado em nome de Deus e disputas religiosas de todos os tipo (DeusUm Delírio de Richard Dawkins):

Infringir crueldade com a consciência em paz é um deleite para os moralistas – foi por isso que eles inventaram o inferno (BERTRAND RUSSEL apud PINKER 2004, 368).

O ser humano não precisa de nenhum tipo de religião para ser solidário com o outro, nenhum tipo de regulação moral ou de conselhos piegas. Não necessitamos de nenhuma invenção sobre “estudos de consciência” com fins de manipulação em nome de um mundo melhor, muito menos um circo quântico tão em moda!

Nas questões da “consciência moral”, olhar a dinâmica da natureza pode ensinar muito sobre nós mesmos, não há nada de bonzinho ou mauzinho ali, é como deve ser, como foi criado ou como evoluiu, não importa. Nossa sina é matar para viver, seja animal ou vegetal. Aceitar o que se é, aprender a ver mais profundamente a si mesmo, não falsificar mudanças internas, nossos defeitos podem ser nossas melhores qualidades (parafraseando Nietzsche), deixará por terra uma série enorme de falsos ídolos. Não é fácil, é o caminho do herói pelos perigos do labirinto em direção ao centro… sozinho. Como diria JOSEPH CAMPBELL, é o jogo da vida que temos que participar. Então, ter algumas portas fechadas podem acontecer, desistir não, mas bater nas portas certas…

O que é Arte Visionária?

A definição mais sucinta e de mais fácil entendimento é dizer que a Arte Visionária é o resultado de experiências de expansão de consciência retratadas plasticamente.

Ela não é algo novo, existe desde o tempo das cavernas, passou por artistas como Paolo Ucello, Arcimboldo ou Bosch no Renascimento, na arte de William Blake, esteve presente no Simbolismo, Surrealismo, Realismo Fantástico, Psicodelismo e, atualmente, com os artistas mais consistentemente se dedicando a retratar suas visões e experiências em Estados Não Ordinários de Consciência (ENOC). No Simbolismo buscou-se retratar estados emocionais, a vida interior do artista, não o real do mundo externo. No Surrealismo buscou-se o mundo do inconsciente, o mundo onírico. No Psicodelismo, o uso de psicoativos, deu início mais consistente do que culminaria na Arte Visionária atual.

Uma pergunta comum é se para ser Arte Visionária, o artista precisa realizar o trabalho artístico sob efeito de alguma substância “alucinógena” como a Ayahuasca, LSD, peiote, etc.

Não propriamente. Os ENOC podem ser conseguidos de diversas formas. Práticas místico-religiosas como jejum, celibato, tantra, mantras e rezas ou cânticos muito repetitivos, músicas específicas, batidas rítmicas de tambores, entre outras, podem levar a estados de expansão da mente. A dor pode ser um elemento, os “faquires” usam essa técnica. Algumas doenças e febres que podem causar delírios ou então esquizofrenia, psicoses, tudo isso é possível de ser usado como Jung fez com alguns pacientes nos desenho de mandalas.
Naturalmente os psicoativos ou substâncias alucinógenas estão presentes e são usados pelos artistas para entrarem em contato mais rapidamente em outros estados de consciência.
Na minha pesquisa comento um pouco a história dos psicoativos, porém me interessa a Ayahuasca por ser uma substância não classificada como “droga” na legislação brasileira e por existirem muitas pesquisas sobre seu uso, seus aspectos médicos e seu impacto social.

Segundo pesquisadores importantes do assunto como David Lewis Williams, já na arte rupestre se encontram elementos visuais conhecidos como entópticos, que atualmente, devidos a testes laboratoriais, ficaram evidenciados como produzidos em ENOC pelos “artistas das cavernas”. Porém não havia a intenção de produzir algo com o nome de “Arte Visionária“, isso só aconteceu nas décadas de 1960/70 em diante.

No caso específico da Ayahuasca, o interesse por uma pesquisa envolvendo-a com a arte é o fato de ela abrir novamente questões interrompidas nos anos 1960 em relação a certas pesquisas sobre a consciência humana. A Ayahuasca, através de algumas religiões brasileiras como o Santo Daime e a União do Vegetal, possibilitaram a abertura de novas pesquisas científicas que despertam interesse no mundo todo novamente, seja pelo lado da saúde, da psicologia, antropologia ou arte.
As artes, segundo Luis Eduardo Luna:

Constituem, sem dúvida, um dos instrumentos mais poderosos para o desvelamento de fenômenos tais como estados não ordinários de consciência.

Devido a isso essa associação Arte-Ayahuasca tem demonstrado ser um caminho extremamente fértil em trabalhos de pesquisa.

Hoje sabe-se que os Estados Não Ordinários de Consciência não são deformações mentais, são estados genuínos de consciência que o ser humano aos poucos vai conhecendo melhor .