Mikosz & Mythosz

Arte e Consciência

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Arte e os Crimes de Plástico

Outro dia, olhando os trabalhos “lowbrow” de Ray Caesar (http://www.raycaesar.com/), pensei na fina linha que separava alguns trabalhos artísticos de crimes. Na biografia do artista consta que ele trabalhou como fotógrafo documentarista no Chidren’s Hospital of Toronto que atende casos de abuso infantil. Segundo o artista, a arte que ele faz, antes de ser uma ode à pedofilia, se trata de uma forma de redenção, isto é, a representação dessas crianças com aparência serena, fazendo face a essa ferocidade, aparentando aceitação e naturalidade, elas deixariam assim de serem as vítimas, até mesmo exercendo o controle da situação. Dessa forma essas pequenas almas atormentadas teriam um lugar melhor, um pequeno pedaço de céu ofertado por ele em seus trabalhos.

Isso me fez pensar em várias questões envolvendo a arte e uma tendência quase insuportável do “politicamente correto” nos dias de hoje. Como separar o “correto” do medroso e do hipócrita, mau humorado, ou, pior, da falta de entendimento do que seria correto mesmo? Refiro-me a todos os outros tipos de representações que envolvam imagens violentas, sexuais, pornográficas, de abuso, questões racistas, estupro, formas naturais e provocadas de morte e o que mais possa levantar dúvidas sobre o “correto” e os tabus de nossa cultura e de outras culturas. Mas, na verdade, não é só a questão do “correto” que me chama atenção, e sim, se a tal liberdade de expressão pode existir mesmo nos casos “incorretos”. Eu acho que deveria sim, por isso dei o título de “Os Crimes de Plástico” (*), pois deveriam ser só isso mesmo, a morte de plástico, o sexo de plástico, tudo de plástico, como em muitos filmes que por aí. Funcionariam sempre como reflexão e curiosidade em relação a como o outro sente ou pensa, suas influências culturais, seus desvios, mas desde que não passe disso.

Vivemos em uma época que o “politicamente correto” atende as exceções, não aos fatos de maneira geral. Será que a maioria dos padres é mesmo pedófila? É possível generalizar assim? Creio que não. Mas hoje tome cuidado em manifestar carinho por uma criança, podem ficar com muito medo e desconfiados de você. Se você for médico, certifique-se que na consulta sempre tenha um terceiro junto, uma enfermeira ou secretária, pois você pode ser acusado de algum ato impróprio. Cuidado quando falar de cores, pode ser interpretado como algo de tendência racista. Se você é professor, cuidado com o tratamento com alunos/as, pois pode ser acusado de assédio. Mesma coisa com colegas de trabalho. Cuide com as piadas. E assim por diante…

E fico pensando quanta mudança já aconteceu nas sociedades. O livro “A Sombra de Dionísio” do Maffesoli é bem informativo a respeito. Muitos tabus sobrevivem no underground até que subam e sejam encarados como “normais” pela sociedade. A mulher votar já foi tabu, ter controle e decisões sobre seu próprio corpo ainda é uma conquista. A nudez é um tabu, posso vender revistas para satisfazer essa curiosidade, mas para um índio não fará muito sentido. O homossexualismo aos poucos abre espaço e é aceito sem tanto trauma, deixou de ser doença, mas em alguns lugares do mundo é crime e se pune com a morte, durante muito tempo se pensava em tratamentos psicológico (!).  O uso de psicoativos como a ayahuasca no Brasil é permitida a grupos religiosos e se discute se é droga, em alguns países a pena é a mesma dada para substâncias como a cocaína, é considerado tráfico e da prisão sem fiança.

Não que um estupro tenha que ser considerado normal, dois cientistas até fizeram pesquisas a esse respeito no livro A Natural History or Rape – Biological Bases of Sexual Coercion de Randy Thornhill e Craig T. Palmer, editado pelo MIT, mas não significa que deva ser uma prática aceita, ninguém quer ser estuprado de verdade (sabe-se que em fantasias não é tão incomum), então tem que existir controle penal sobre essas coisas, mesmo que fossem “instintos naturais”. Já os pesquisadores que citei, não cheguei a ler o livro, parece que nunca mais puderam dar palestras sem perigo de serem agredidos! É como disse Bertrand Russel: “infringir crueldade com a consciência em paz é um deleite para os moralistas – foi por isso que eles inventaram o inferno”, assim não sentem culpa em levar o outro para a fogueira, vide a Santa Inquisição, as Guerras contra o Terror, os fundamentalismos religiosos, etc. Mas não se trata de defender o “crime”, um leão come gente, sem problema, é natural, não é crime, nem por isso as grades do zoológico estão abertas…

Nessa linha que estou falando, lembro do Robert Crumb, famoso desenhista de HQ plenamente atuante ainda. Há uns quadrinhos de incesto que acaba com a frase “devíamos fazer mais vezes isso em família”, simplesmente hilário, não é pra levar a sério. E tem outras histórias mais “escabrosas” ainda, como algumas do Mister Natural e um bebê gigante. Quem quiser ver que procure (risos). É tão insano que também não pode ser levado a sério. Crumb faz uma provocação quase terapêutica, catártica, em cima dos tabus mais básicos da nossa sociedade, o considero um gênio por essa capacidade. Se chocar com isso é puro falso moralismo, pois essas coisas não estão em questão de forma alguma no “mundo real”. Outro artista que trabalha questões de sexo e violência é o Trevor Brown e pode ser encontrado nesse link http://www.pileup.com/babyart/_top.htm.

Acho que as pessoas, bem intencionadas, ponderarão: “mas será que essa liberdade não influenciaria o comportamento das pessoas”? Acho que influenciaria tanto quanto qualquer fantasia, as pessoas sabem que se trata de fantasia. Falaram tanto no malefício dos videogames violentos, mas as crianças sabem que aquilo é de “plástico”. Eu brinquei muito com pistolas imitação das reais (hoje proibidas no Brasil), dei centenas de tiros em meus amigos, jamais me passou pela cabeça em comprar revólver de verdade para ficar dando tiros nos outros depois de adulto. As causas que levam aos crimes são bastante diferentes na história de cada caso, não culpemos as fantasias, não culpemos a arte.

Concluindo, liberdade absoluta de expressão é a melhor forma de conhecermos esse ser complexo que é o humano. Primeiramente vamos parar de fingir que o ser humano é saudável (risos). Quem não quiser, que não veja, evite, procure não se identificar, mas acho que sabemos muito pouco sobre nossa complexidade humana, biológica e cultural, estamos condicionados a padrões, limitados na ação e expressão e isso sim me parece mais próximo de causar patologias. A arte, acima da ciência nesse sentido, deve ter o direito desse devaneio nos tabus e ver o que sobra disso. Parece-me menos hipócrita e, reafirmando minha crença, não creio que a arte induza a nenhum tipo de crime, por si só ela já é uma catarse, justamente o que está sendo representado ali, talvez não vaze para o mundo.

(*) Essa expressão ouvi pela primeira vez de um grande artista e amigo: Celso Júnior.

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Arte – Ateliê e Academia

Há diversas formas de se relacionar profissionalmente com a arte. Você pode ser um artista que vive única e exclusivamente de sua produção. Existem, mas são poucos os que conseguem. Há os que trabalham em instituições diversas, como em fundações culturais, museus, etc. E há também os que se dividem em ensinar e, dessa forma, tem o sustento para fazer também seus próprios trabalhos. Em relação aos que ensinam podemos dividir em duas categorias: os que têm ateliês livres de pintura, gravura, fotografia, escultura, como os oferecidos pela FCC no Solar do Barão e no Centro de Criatividade e outros em galerias ou ateliês de artistas plásticos pela cidade. E há os que optaram por serem professores universitários. Aqui em Curitiba há várias opções como a UTP, a FAP, A UFPR, a EMBAP, assim como na PUC e na UTFPR onde há o pessoal que circula em meio à produção de cinema, HQ, fotografia, computação gráfica, enfim, a tecnologia aplicada à arte em geral.

Quem decidir pela carreira acadêmica deve estar consciente que ela envolve pesquisa, além da parte prática dos ateliês (excetuando os que já se dedicam a disciplinas teóricas). Para ser professor universitário é exigida a titulação mínima de Especialista e cursada a disciplina de Metodologia do Ensino Superior. Porém, cada vez mais os concursos exigem Mestrado e Doutorado de seus candidatos. É natural que isso aconteça, pois cada vez é maior o número de pessoas que se titulam e as instituições tem maiores benefícios quando seu quadro de professores tem pessoas qualificadas. Por exemplo, a Fundação Araucária incentiva a pesquisa dando bolsas de estudo para professores orientarem alunos em programas de iniciação científica (PIC). Professores com Mestrado podem dar bolsa para um aluno, com Doutorado dois. Isso beneficia os alunos, intensifica a produção dentro da instituição. Quando o quadro de professores doutores é suficiente, é possível se pensar na criação de um mestrado, mais tarde até em um doutorado. Isso significa mais apoio da CAPES/CNPq, mais bolsas, mais verbas são destinadas às universidades, que mais produzem numa relação extremamente simples e lógica de se entender.

Atualmente nas faculdades de arte essa produção se dá tanto pela pesquisa como na produção artístico/cultural, aliás, vendo a documentação da UNESPAR que a EMBAP e a FAP agora fazem parte, mesmo as demais áreas como as Ciências Exatas, também possuem avaliações artístico/culturais. Imagine então o que se espera de professores ligados diretamente ao ensino da arte: muita produção acadêmica e muita produção artística também. As coisas evoluem, se adaptam as necessidades de acordo com a época. No renascimento se aprendia a pintar sendo discípulo de um pintor, iniciava-se como auxiliar e se desenvolvia gradualmente até ser capaz de participar na pintura dos quadros. Até pouco tempo bastava os professores serem formados para darem aulas de arte nas faculdades. Hoje se exige mais do que isso e não é a toa que muitos estudantes manifestam interesse em se tornarem pesquisadores.

Fazendo parte da ANPAP (Associação Nacional dos Pesquisadores em Artes Plásticas), acompanhando programas de mestrado e doutorado tanto na EMBAP/EBA-UFBA, como na UTFPR, fazendo parte de bancas de concursos na FAP e UFPR, fica claro como a produção acadêmica sobre e em arte estimula o pensamento, a reflexão e a produção dos professores nas instituições. Mas, claro, sempre há os que preferem apenas a arte sem o peso da academia, esses podem se dedicar aos ateliês livres como foi comentado, há diversos casos de sucesso de alunos que saíram da EMBAP e hoje são excelentes professores em seus ateliês. E também há os que vivem exclusivamente de sua arte. Para ser um grande artista, nem sempre a vida acadêmica é necessária. Mas nem todo mundo pode ser um Hubert Duprat que, além de artista é pesquisador, mas não está ligado a nenhuma academia, nem se interessa por isso, as academias que vão pesquisá-lo. Cada um deve lutar pelo que acredita e sonha e no lugar certo.

Ceci n’est pas une peinture

Wasiwaska Visionária

WASIWASKA é um Centro de Pesquisa Internacional sobre Plantas Psicointegradoras, Arte Visionária e Consciência. Todos os anos o Centro reúne cientistas e artistas que se dedicam a estudos sobre temas diversos relativos à consciência. O Prof. Dr. Luis Eduardo Luna, antropólogo, diretor do Centro, é referência mundial sobre os temas tratados ali.

O Prof. Luna foi meu principal mentor e orientador durante minha tese de doutorado. Desde o início sua simpatia e competência firmou entre nós um relacionamento de colaboração e amizade. Desde então tenho participado de alguns encontros na Wasiwaska que tem sido de vital importância nas minhas pesquisas sobre Arte e Consciência, notadamente a Arte Visionária.

Wasiwaska

Entrada do Instituto

Abaixo uma das pinturas de Pablo Amaringo do acervo da Wasiwaska. Está sendo planejado um Simpósio de Cultura Visionária para 2011 em Florianópolis, onde parte do acervo estará presente para exibição, possibilitando ao público ver de perto obras consagradas de Arte Visionária.

Pablo Amaringo

Pintura de Pablo Amaringo

Na foto seguinte, dos seminários de agosto de 2008, da esquerda para direita estão: Prof. Manuel Torres (Arte Historiador e Arqueólogo), Donna Torres (Artista Visionária), Dra. Claudia Mueller-Ebeling (Arte Historiadora) e o Dr. Christian Rätsch, um dos mais importante etnofarmacologistas da atualidade e também artista visionário e escritor, foi amigo pessoal de Albert Hoffman.

Pesquisadores Wasiwaska

Intervalo entre os Seminários

Na próxima foto Michael Winkelman e sua esposa Cindy numa visita a Curitiba. Winkelman é um dos Organizadores da Wasiwaska. Antropólogo americano da Universidade de Fênix com vários estudos sobre xamanismos e também de uma abordagem biocultural da religiosidade como no livro Supernatural as Natural – A Biocultural Approach to Religion de sua autoria.

Mikosz, Cindy e Winkelman

Mikosz, Cindy e Winkelman

Um dos momentos importantes para mim foi participar dois dias do Seminário de Arte Visionária realizado em janeiro de 2010, ministrado pelo Prof. Luna e os artistas visionários Alex Grey e Allyson Grey. Nesse encontro tive oportunidade de pedir autorização para usar imagens de autoria desses dois importantes artistas para meu livro que será lançado em 2011 e que reúne anos de pesquisa sobre o tema, resultando na minha tese de doutorado defendida em abril de 2009. Hoje a Arte Visionária se torna cada vez mais conhecida no Brasil e me sinto feliz de encabeçar essa pesquisa sobre arte e consciência atualmente por aqui (CAPES/CNPQ). A Arte Visionária vem se tornando um modismo, como sempre acontece quando algo ganha alguma notoriedade, mas muitos não sabem direito do que se trata. Além de algumas postagens nesse blog, algumas informações podem ser obtidas aqui.

Oficina de Arte Visionária

Alex Grey e Mikosz tentando afastar eletronicamente os pernilongos!

Allyson Grey

Allyson Grey durante o Seminário

Seminário de Arte Visionária

Alguns dos participantes de várias parte do mundo.

Ramachandran e seu cérebro

Como separar produção artística de nossa massa gelatinosa?
Arte pela arte possui uma epistemologia própria? Ou o ser humano* produz arte? (* com todas as implicações do termo…)
Achei divertida as colocações do Ramachandran sobre Freud, acho que isso também mostra o quanto necessitamos revisões na psicologia terapêutica.
Enfim, não é um vídeo discutindo arte e neurociências, pra mim serve de reflexão interdisciplinar, pois tenho visto dificuldades nas pesquisas devido a algumas instituições limitarem a discussão em arte de forma disciplinar, para mim isso é de um reducionismo simplista diante do “ser que produz arte”.
Não consegui colocar o vídeo aqui, mas deixo o link pra quem se interessar (tem legenda em português).

Ramachandran_on_your_mind

A razão pura não existe: nós pensamos com o nosso corpo e nossas emoções.

AYA – AVATAR (filme)

AYA - AVATAR (o filme)

Parte das informações do texto abaixo foram retiradas de um interessante artigo de Ido Hartogsohn, Avatar: The Psychedelic Worldview and the 3D Experience, do artigo Aya Avatar: Drink the Jungle Juice de Erik Davis (grato Zarko!) e vale a pena ver o do Richard Meech Sacred brews, secret muse (thanks Bia!). Também há bastante informação, não sobre o filme, mas sobre as experiências, no meu trabalho Arte Visionária e Ayahuasca.

O filme Avatar faz parte de uma cultura que podemos chamar psicodélica ou visionária. O termo psicodélico foi praticamente abandonado devido às associações “perigosas” com os anos 1960 e o uso do LSD (quem proibiu essa “perigosa” substância estava mais preocupado em acabar com os pacifistas alucinados e continuar com a saudável causa da guerra no Vietnam). Já a Cultura Visionária vai mais além, vem renovada científica e tecnologicamente, abordando também o uso de substâncias psicoativas, principalmente da classe phantastica, na classificação de Louis Lewin, vulgarmente os “alucinógenos”. Há tentativas de se trocar o termo alucinógeno por “enteógeno” – aquilo que desperta a experiência divina interna -, como mais uma forma de escapar dos preconceitos.

Thimothy Leary, o “pai” do psicodelismo era um entusiasta do personal computer nos anos 1980. Terence McKenna, outro pensador do psicodelismo, foi defensor da realidade virtual e da internet nos anos 1990. McKenna defendia que a estética psicodélica tem sido constantemente assimilada pelas tendências da mídia. De fato, com os desenvolvimentos tecnológicos, os sistemas digitais possuem cada vez melhor resolução, uso de cores brilhantes, a multisensorialidade, os audiovisuais, videoclipes, a tecnologia em 3D gerada por computadores[1], trouxeram a possibilidade de imersão, pelo menos uma simulação, da experiência psicodélica. Claro, pode não ser a mesma coisa, mas é impressionante. Talvez alguns aqui tenham assistido o filme Viagens Alucinantes (Altered States de Ken Russel – 1980), onde aparece a tecnologia, testada pelo cientista John Lilly em 1954, de imersão em um tanque de água para induções de estados não ordinários de consciência (ENOC). Outro filme que mostra simulação similar é o Matrix, assim como o isolamento no filme Avatar.

Minha experiência particular foi assim: logo de início assistimos os trailers de algumas animações e do filme, mais do que psicodélico, Alice no País das Maravilhas. Apesar de já conhecer a tecnologia 3D, ali no IMAX foi uma imersão maior, suficiente para eu me sentir, de certa forma, “modificando” minha consciência, uma pequena insegurança, uma mareação leve, tensão geral, mas que fui relaxando sabendo que o segredo é não resistir! 😀

O visual do filme é realmente fabuloso, as luzes, a mata, as árvores, os seres, as plantas, concepções geniais de tudo. Vendo isso pensei que pintar era a coisa mais sem graça do mundo, que deveria me dedicar apenas às imagens sintéticas no computador, mas fui salvo em seguida. Não sei se eles colocaram os créditos, mas aquelas montanhas flutuantes, gigantescas, com cachoeiras caindo no vazio, são do Patrick Woodroffe, um dos pintores de fantasia que mais me deliciam e que é ainda pouco conhecido. Apesar dos limites da tinta, a pintura visionária serve como inspiração em todos os níveis, tradicionais ou tecnológicos e, claro, muito pintores visionários como o Pablo Amaringo, Alex Grey, etc., são exemplos da importância dessa forma de expressão.

Algumas imagens do filme são clichês, ou melhor, são como são, são daquele jeito mesmo. Por exemplo, passar por túneis quando se está entrando nos estados não ordinários de consciência é uma experiência muito relatada. Mas vamos encontrar mais algumas semelhanças com a experiência da ayahuasca em si. O filme fala de Eywa (se não me engano, muito próximo da pronúncia em inglês de aya). Ela é chamada “Árvore das Almas”, ayahuasca significa “Cipó das Almas”. Os primeiros pesquisadores chamaram a ayahuasca de “telepatina”, devido à estranha capacidade que os nativos tinham em se comunicar quando inebriados com a bebida. A árvore Eywa funciona como uma central ligada em rede com tudo que é vivo no planeta. Ela guarda toda a ancestralidade, a memória dos nativos. Plantas terem espírito, serem divinas, ensinarem, faz parte de inúmeras culturas no mundo e, claro, dos povos da Amazônia também. A presença dos xamãs no filme, usando Eywa como aliada nos processos de cura e da religiosidade da tribo, nos remete, da mesma forma, às práticas do xamanismo amazônico.

O filme, infelizmente, não é apenas fantasia. Aliás, dentro da cultura visionária, assim como da psicodélica, as experiências desse “outro mundo” muitas vezes são sentidas como mais verdadeiras do que “desse” mundo, exatamente como é mostrado por Jake Sully no filme. Mas o que digo que infelizmente não é fantasia, é o fato de que, pelos mesmos motivos apresentados no Avatar, estamos devastando a Amazônia. Seja para mineração, seja para criação de gado (dá vontade mesmo de parar de comer carne!). Eu lembro quando mostravam a abertura da Transamazônica, aquelas Samaumas sendo derrubadas, e parecia algo tão sensacional, minha mente infantil não tinha consciência… agora vejo com horror que isso ainda acontece. Nosso governo pensa sobre a Amazônia “vamos abrir um pouco mais, precisamos dessa demanda, riqueza, mas só mais um pouquinho…”, mas continuamos nos reproduzindo cara pálida, vamos precisar SEMPRE MAIS, temos que parar a exploração agora! Pena que não temos um povo realmente forte lá. Muitos dos que temos estão aceitando de bom grado coca-cola e jeans, não é mesmo? Além de que as supostas ONGs protecionistas, me dão impressão de tremendas armadilhas, tomara que eu esteja enganado. Quem quiser ver um pouco do que se passa, pode ver na internet algumas reportagens de Bruce Parry. Algo que, particularmente me deixou impressionado com o delicado sistema ecológico amazônico foi o Kambô, uma vacina que os índios usam para tirar a panema (má sorte em geral). Ela é produzida a partir da secreção de uma rã, a Phyllomedusa bicolor e aplicada na pele sobre pequenos orifícios abertos nela por um cipozinho com brasa na ponta. O curioso é que as propriedades da secreção da rã estão diretamente ligadas à sua dieta, um tipo de formiga com uma picada extremamente dolorida. Sem essa dieta, a secreção não funciona. O cipozinho que os índios usam nasce das pernas dessa formiga. Bom, pelo menos é o que os índios dizem. De fato, as formigas carregam as sementes desse cipó nos seus caminhos pelos galhos das árvores, é natural que dê essa impressão. Qualquer desequilíbrio, adeus Kambô. Há patentes alemãs, japonesas, sobre as propriedades da secreção da rã, dizem que é 2000 vezes mais forte que a morfina, mas, parece que patentes brasileiras não há nenhuma.

A história do filme em si, como a crítica comentou, é o modelo de trama bastante comum, o vilão, o herói, um romance, parece que tudo vai perder-se e, por fim, uma solução esperada de antemão por todos. O visual, como comentei, psicodélico, visionário, da melhor qualidade, muito bem feito, tecnologia de ponta em computação gráfica. Mas ver o filme por essas qualidades é pouco, pois é possível, através de nossa natural capacidade em aceitar o sobrenatural, sentirmos o sagrado se manifestando ali… enfim, psicodélico…que significa “aquilo que revela ou manifesta a alma”. Pra quem gosta, um bom prato, eu repetirei com certeza.

Recomendo a leitura dos links acima, pois não quero me alongar e tem muito mais informação interessante sobre o filme e o que se entende aí por psicodelismo e cultura visionária. Boa leitura!


[1] Nos anos 1970 assisti filmes 3D exatamente com a mesma tecnologia atual de polarização com óculos especiais, acredito que os filmes não se popularizaram por causa que é bem mais complicado processar 3D com filme de película do que com os digitais disponíveis agora.

De Como Quem Menospreza a Pintura, Filosofia e Natureza Não Ama

Se você menosprezar a pintura [figurativa], imitadora solitária de todas as obras visíveis da natureza, de certo desprezarás uma sutil invenção que, com filosofia e sutil especulação, considera as qualidades de todas as formas: mares, paragens, plantas, animais, árvores e flores que se banham de luz e sombra. Esta é, sem dúvida, uma ciência e legítima filha da natureza, que a pariu, para dizer “em boa lei”, sua neta, pois todas as coisas visíveis foram paridas pela natureza e dela nasceu a pintura. De modo que a chamaremos cabalmente de neta da natureza e a colocaremos entre o seu divino parentesco.

Quem reprova a pintura, reprova a natureza, porque as obras do pintor representam as obras dessa mesma natureza e, por isso, tal censor carece de sentimentos.

[Obs: O texto é do Leonardo da Vinci… Não é a toa que a fotografia também tem o estatus de arte, sendo que o que interessa não o ato de apertar um botão, mas do olhar, perfeitamente válido também para a pintura que pode até usar a fotografia como meio de recorte na natureza]

Painel Cultural de Arte Visionária

Boom Festival 2008, Portugal

(Video com perguntas e respostas sobre Arte Visionária).

Liminal Media Stream Presented by the Elvish Nation, Pod Collective, Elfintome and Crystal and Spore, this historic panel connects key art culture creators from North America, Europe and Asia. Exploring the role and place of art in the new culture, this is a tributary in a 120 hr curriculum confluence featuring over 30 presenters and artists from 23 countries. Over the course of a week the liminal village conference and gallery hosted many of the 30,000 festival goers from 80 countries.

For details on printed media that compliments this experience, contact delvin@crystalandspore.com.

Visionary Art Culture Creators Panel

CONCEPT STEWARD AND MC : Delvin Solkinson

DJ : Naasko Wripple

VJ : Sijay James

FILMED BY : Mari Asada

ART PANEL:

Leo Plaw

Luke Brown

Carey Thompson

Andrew Jones

Zariat

Laurence Caruana

boomfestival.org

podcollective.com

elfintome.com

visionaryrevue.com

lila.info elvism.net

higherglyphiks.com

lightscience.ca

r6xx.com

beinart.org

artofimagination.org

Tabula Rasa

O texto abaixo é um pequeno recorte de um capítulo que se encontra no livro Tabula Rasa – A Negação Contemporânea da Natureza Humana – de Steve Pinker, professor de psicologia de Harvard, especialista em Ciências Cognitivas, ex-professor do MIT (um dos maiores centros de pesquisa do planeta) e que traz em seu livro algumas reflexões sobre Arte e Natureza Humana.

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Embora as formas exatas de arte variem muito entre as culturas, as atividades de criar e apreciar arte são reconhecíveis em toda a parte. O filósofo Denis Dutton identificou sete assinaturas universais:

  1. Perícia ou virtuosismo. Habilidades artísticas técnicas são cultivadas, reconhecidas e admiradas.
  2. Prazer não utilitário. As pessoas apreciam a arte pela arte, e não requerem que ela as mantenha aquecidas ou que lhes ponha comida na mesa.
  3. Estilo. Objetos e representações artísticas satisfazem regras de composição que as situam em um estilo reconhecível.
  4. Crítica. As pessoas fazem questão de julgar, avaliar e interpretar obras de arte.
  5. Imitação. Com algumas importantes exceções como música e pintura abstrata, as obras de arte simulam experiências do mundo.
  6. Enfoque especial. A arte é distinguida da vida comum e dá um enfoque dramático à experiência.
  7. Imaginação. Artistas e seus públicos imaginam mundos hipotéticos no teatro da imaginação.

As raízes psicológicas dessas atividades recentemente tornaram-se tema de pesquisas e debates. Alguns pesquisadores, como a acadêmica Ellen Dissanayake, acreditam que a arte é uma adaptação evolutiva, como a emoção do medo e a capacidade de ver em profundidade. Outros, como eu, acreditam que a arte (exceto a narrativa) é um subproduto de outras três adaptações: a ânsia por status, o prazer estético de vivenciar objetos e ambientes adaptativos e a habilidade de elaborar artefatos para atingir os fins desejados. Desta perspectiva, a arte é uma tecnologia de prazer, como as drogas, o erotismo e a culinária refinada – um modo de purificar e concentrar estímulos prazerosos e enviá-los aos nossos sentidos (PINKER 2004, 546).

–> Para ler um pouco mais sobre Steve Pinker, além do site, saiu na Folha de São Paulo uma interessante entrevista com ele e o escritor McEwan aqui.

(Interessante refletir que praticamente apenas nas Artes Visuais algumas coisas “estranhas” acontecem, isto é, você já viu um malabarista apenas deixando cair os malabares? Sim, isso, malabarismo “pós-moderno”. Parece familiar com muitas produções “contemporâneas” de Artes Visuais? Coisa pra se refletir, não? Há muita coisa boa, interessante e importante na arte atual, mas tem muita imitação duchampiana fraca por ai :D).

Notas Sobre a Arte Visionária

Lendo um texto de Laurence Caruana, artista que editou o Manifesto da Arte Visionária, resolvi traduzir e parafrasear aqui algumas dessas idéias que parecem comuns aos artistas que se dedicam a esse tipo de arte. O texto se refere principalmente a pintura, mas pode ter os mesmos valores se traduzidas as idéias para outros meios.

  1. Confrontada pela tecnologia moderna, tal como a fotografia, a arte visionária incorpora estes modos de ver na pintura (veja Pierre Peyrolle em “A Arte Visionária na França”) e mesmo a ultrapassa através da pintura hiper-realista* (veja “Mati Klarwein revisto”). Fazendo isto, a Arte Visionária procura também reproduzir exatamente o que nenhuma fotografia pode: sonhos, visões alucinogênicas, estados psicodélicos, etc.
    (*) Ou Richard Estes, Claudio Bravo ou Chuck Close.
  2. Através de estados alternativos de consciência (os ENOC na minha tese), o artista visionário encontra modos diferenciados de perceber os trabalhos de arte tradicional. Muitas mensagens inesperadas (escondidas previamente ou “despercebidas”) emergem agora, expandindo nossa “estreita, demasiada estreita” percepção da história da arte. O artista visionário tenta integrar esta visão renovada do passado em todos os trabalhos futuros.
  3. Para o Artista Visionário, a tela é como uma janela em outro mundo. Ele não admira a janela em si, ou presta atenção na qualidade do vidro. Faz o médium (tintas, pinceladas, etc) tão transparente quanto possível, de modo que a imagem possa “i-mediatamente” ser apresentada ao observador. Tenta apresentar tão autenticamente quanto possível a visão original.
  4. O discurso* tem uma existência autônoma à parte do artista e do crítico. O título dado pelo artista participa num relacionamento poético com a imagem e o texto crítico explora nas palavras o mesmo assunto alusivo que a pintura explora nas imagens: sonhos, visões, alucinações.
    (*) Laurence se refere ao fato de que muitas obras atuais necessitarem de um conceito para se sustentarem. Material de bom humor sobre isso pode ser lido em A Palavra Pintada de Tom Wolfe.
  5. A Arte Visionária conduz a uma existência marginal. A busca espiritual da maioria dos artistas impossibilita-os de um interesse maior pelo valor material de seu trabalho. Os artistas estão ocupados demais em explorar seus mundos internos para promoverem sua arte como um bem de consumo (atender abertura de galerias, fazer contatos, etc). A pintura permanece como um trabalho de arte, muitas vezes não compreendida pelos “antigos contemporâneos”.
  6. A Arte Visionária é ligada a internet. Melhor que fazer intermediações, a internet apresenta imediatamente as imagens. A web permite acessar os trabalhos livremente e de se comunicar diretamente com o artista. O galerista como o intermediário ou o “porta-voz”, tornam-se obsoletos. E o papel dos galeristas é assumido por artistas autônomos e colecionadores independentes e de visão mais ampla.

Os artistas visionários estão em dia com as pesquisas contemporâneas da psicologia profunda, das neurociências, da física quântica, de novas investigações antropológicas, arqueológicas, de tudo que envolve o homem diante do absoluto misterioso e sua eterna busca de significado.

Movimentos esses típicos do milênio que se inicia e que teve, no caso da cultural ocidental, um primeiro impulso de massa nas décadas de 1950 e 1960 e que são retomadas novamente. É a primeira vez que a ciência se alia de forma lúcida com os fenômenos espirituais.

No Renascimento houve a aproximação da ciência com a arte, uma delas na aplicação da perspectiva desenvolvida por Brunelleschi nas pinturas. Essa época foi marcada pelo antropocentrismo, contapondo um pouco os sentimentos devocionais religiosos que vinham da Idade Média. A época atual não se assemelha ao Renascimento nesse sentido, mas podemos pensar que estamos diante de um humanismo-científico-espiritual em pleno desenvolvimento.

A arte é usada então, como um meio de comunicação, de compartilhamento desse universo, impulso presente desde os tempos da caverna, buscando, como diz L. Caruana: Ser reveladora