Mikosz & Mythosz

Arte e Consciência

Arquivos Mensais: agosto 2008

A Farsa da Consciência

De que tipo de consciência estamos falando? De um estudo científico sobre a psique humana, o dualismo entre corpo e alma (cérebro/mente), neurociências, etc., ou de questões como a moral, “sentido do que é certo ou errado”, ou a suposição de que a medida que se “evolua” em relação a consciência nos tornaremos “superiores”, isto é, mais espiritualizados, solidários, bonzinhos, de um tipo de moral elevada, pois são coisas completamente diferentes.

Se formos em direção aos estudos cérebro/mente, teremos que fazer frente a uma enorme série de teorias contraditórias, entrar em um campo novato, pouco conhecido, de difíceis acordos entre os especialistas. Não há espaço aqui pra isso. Mas o que quero mostrar aqui são alguns enganos básicos nesses estudo sobre consciência. Primeiramente porque o ser humano não tem UMA consciência. Freud e Jung, por exemplo, cada um de seu modo, desenvolveram o conceito de inconsciente. Jung nos fala de um inconsciente pessoal e outro coletivo. O Freud inicial fala de um inconsciente como um receptáculo de conteúdos recalcados (cito esses psicólogos por serem pioneiros, muita coisa se renovou depois deles). Mas isso é a ponta do iceberg. Williams James se refere à necessidade de se levar em conta outras consciências:

Nossa consciência vigilante normal, a denominada consciência racional, não é mais do que um tipo especial de consciência separada de outros tipos de consciência completamente diferentes pela mais fina das camadas… Nenhuma descrição do Universo em sua totalidade que deixe essas outras formas de consciência no esquecimento poderá ser efetiva.

A ilusão de que se pode viver de um modo coerente, com uma única consciência grudada com goma de mascar em algum centro da personalidade é no mínimo inocente, ignorante, se não propositalmente maldosa. Voltaire comparou certa vez um homem em dois estados diferentes, um quando ele está constipado, outro quando ele está com diarréia. No primeiro caso o infeliz certamente estará mal-humorado, enfezado (isso mesmo, cheio de fezes). Já na diarréia ele se tornará lânguido, pois nesse estado a química não ajuda muito a agressividade. E, segundo Voltaire, essa é a pretensão humana de ser a imagem de Deus: sentado numa privada, tendo seus estados de humor regulados por seus intestinos. Mas o que tem a ver isso com a consciência? Tudo. Somos seres que ficamos diferentes – trocamos nossa forma de interpretar e sentir – pelos motivos mais banais. Você se promete ser bom, basta levar uma fechada no trânsito, entrar em uma discussão com a mulher, patrão, filhos, a mosca que cai na sopa e pronto, diversos personagens seus, que são vocês, aparecem do nada. Seu controle sobre eles é mínimo na hora, depois você quer se matar de raiva de “ter se traído”. Somos uma legião de pessoas internamente, além de que nosso corpo, mente, intelecto e emoções, nem sempre estão de acordo com o que querem e precisam. Em situações semelhantes em um momento somos valentes gritões, noutra covardes e trêmulos, outras ainda estamos de TPM ou diarréia. Não conseguimos ser os mesmos diante de pessoas diferentes e, se você nunca reparou nisso, seu estado de consciência sobre você mesmo é mínimo, que vergonha!

Uma das formas de pesquisa que colabora muito na área são os estudos sobre os estados não ordinários de consciência (que chamo ENOC). Estuda-se sobre o funcionamento do cérebro e sobre a atuação dele tanto como receptor tanto como válvula redutora da percepção (ver Huxley, Hangcock). Os ENOC são considerados estados legítimos de consciência atualmente. Não são mais considerados deformações, alterações ou distorções do estado comum de consciência “normal”. Como comentei em outra postagem, várias técnicas religiosas como meditações, jejuns, celibato, danças, rezas, tambores xamânicos, etc., são capazes de levar a estados especiais de consciência. Certos psicoativos têm a mesma propriedade, agem no cérebro diminuindo o poder de válvula redutora dele, dando chance da ciência compreender diversos fenômenos da consciência, inclusive muitos dos que estão relacionados aos chamados estados místicos, no qual a natureza humana acaba criando mitos e religiões (Rick Strassman tem um belo estudo a respeito – DMT-The Spirit Molecule).

Naturalmente, falar de psicoativos provocará em alguns imediato preconceito e medo. Sim, é um problema mesmo, mas nada comparado com algo chamado ignorância, pois do que, da qual estamos falando? No Brasil aproximadamente 25.000 pessoas usam Ayahuasca para fins religiosos (sem falar nas aprox. 70 tribos de índios que a usam como medicina e religião durante séculos – ver Reichel-Dolmatoff, Schultes & Hoffman, Lux Vidal, etc), perfeitamente integrados na sociedade, nas suas famílias e seus trabalhos e, plenamente legais juridicamente. Legalização essa que ocorreu com pesquisas científicas do mais alto nível que confirmaram as características inócuas da bebida em questão (levada a cabo com cientistas como Charles Grob, Jace Callaway, Dennis Mckenna e Rick Strassman. Há muita informação em autores como Beatriz Labate, Ralph Metzner, Benny Shanon, Luis Eduardo Luna, etc, etc). Descartar o tema por preconceito, “não devemos falar sobre o ‘Santo Daime‘” em discussões sobre ciência da consciência é um preconceito, uma segregação ideológica, tendenciosa, movida por segundas intenções, jamais limpa ou honesta e, muito menos, científica. Dessa forma, nós sim, sentimos que isso se opera como uma forma velada de violência…

Outro erro gigante sobre a consciência está no sentido moral que atribuem a ela. Jung falava da necessidade do indivíduo integrar na personalidade seus lados obscuros, a sombra. Recalques, repressões, “auto-controle”, não são espiritualidade e sim, política, serve para manter as aparências ou manipular os demais. Tampouco é sair dando socos, é usar essa energia com outro tipo de sabedoria, sem “entupí-la”. Muitas pessoas que se aproximam da espiritualidade acham que devem mudar, mas mudanças reais não se tratam de “política”, nem de trocas de condicionamentos e hábitos, mudanças só serão reais se você não precisar recalcar nada e simplesmente ser. Nesse caso, melhor é ser “mundano”, aquele que está no mundo, pois há um sentido nas experiências de estarmos aqui, dos nossos conflitos, irritações, desejos e dúvidas, mais do que em fantasias místicas e recompensas no paraíso. Isso é o que se chama auto-conhecimento e da coragem necessária para viver o que se é (e os seres humanos seriam muito melhores se assim o fizessem e permitissem, pois poderiam “passar por” sem ficarem presos em recalques). Recalcar e passar por “evoluído” não engana os outros por muito tempo, só a você mesmo. Não é a toa que qualquer julgamento sobre o outro está fadado a ser preconceito e erro apenas. Ninguém sabe sobre você melhor do que você mesmo e do que você precisa.

A religião foi o primeiro sistema que utilizou o conhecimento místico para segregar as pessoas. “Sacerdotes” se colocam em uma hierarquia superior, guiando rebanhos como se fossem diferentes ou superiores. Sabemos o que o mundo tem passado em nome de Deus e disputas religiosas de todos os tipo (DeusUm Delírio de Richard Dawkins):

Infringir crueldade com a consciência em paz é um deleite para os moralistas – foi por isso que eles inventaram o inferno (BERTRAND RUSSEL apud PINKER 2004, 368).

O ser humano não precisa de nenhum tipo de religião para ser solidário com o outro, nenhum tipo de regulação moral ou de conselhos piegas. Não necessitamos de nenhuma invenção sobre “estudos de consciência” com fins de manipulação em nome de um mundo melhor, muito menos um circo quântico tão em moda!

Nas questões da “consciência moral”, olhar a dinâmica da natureza pode ensinar muito sobre nós mesmos, não há nada de bonzinho ou mauzinho ali, é como deve ser, como foi criado ou como evoluiu, não importa. Nossa sina é matar para viver, seja animal ou vegetal. Aceitar o que se é, aprender a ver mais profundamente a si mesmo, não falsificar mudanças internas, nossos defeitos podem ser nossas melhores qualidades (parafraseando Nietzsche), deixará por terra uma série enorme de falsos ídolos. Não é fácil, é o caminho do herói pelos perigos do labirinto em direção ao centro… sozinho. Como diria JOSEPH CAMPBELL, é o jogo da vida que temos que participar. Então, ter algumas portas fechadas podem acontecer, desistir não, mas bater nas portas certas…