Mikosz & Mythosz

Arte e Consciência

Arquivos Mensais: abril 2008

Tabula Rasa

O texto abaixo é um pequeno recorte de um capítulo que se encontra no livro Tabula Rasa – A Negação Contemporânea da Natureza Humana – de Steve Pinker, professor de psicologia de Harvard, especialista em Ciências Cognitivas, ex-professor do MIT (um dos maiores centros de pesquisa do planeta) e que traz em seu livro algumas reflexões sobre Arte e Natureza Humana.

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Embora as formas exatas de arte variem muito entre as culturas, as atividades de criar e apreciar arte são reconhecíveis em toda a parte. O filósofo Denis Dutton identificou sete assinaturas universais:

  1. Perícia ou virtuosismo. Habilidades artísticas técnicas são cultivadas, reconhecidas e admiradas.
  2. Prazer não utilitário. As pessoas apreciam a arte pela arte, e não requerem que ela as mantenha aquecidas ou que lhes ponha comida na mesa.
  3. Estilo. Objetos e representações artísticas satisfazem regras de composição que as situam em um estilo reconhecível.
  4. Crítica. As pessoas fazem questão de julgar, avaliar e interpretar obras de arte.
  5. Imitação. Com algumas importantes exceções como música e pintura abstrata, as obras de arte simulam experiências do mundo.
  6. Enfoque especial. A arte é distinguida da vida comum e dá um enfoque dramático à experiência.
  7. Imaginação. Artistas e seus públicos imaginam mundos hipotéticos no teatro da imaginação.

As raízes psicológicas dessas atividades recentemente tornaram-se tema de pesquisas e debates. Alguns pesquisadores, como a acadêmica Ellen Dissanayake, acreditam que a arte é uma adaptação evolutiva, como a emoção do medo e a capacidade de ver em profundidade. Outros, como eu, acreditam que a arte (exceto a narrativa) é um subproduto de outras três adaptações: a ânsia por status, o prazer estético de vivenciar objetos e ambientes adaptativos e a habilidade de elaborar artefatos para atingir os fins desejados. Desta perspectiva, a arte é uma tecnologia de prazer, como as drogas, o erotismo e a culinária refinada – um modo de purificar e concentrar estímulos prazerosos e enviá-los aos nossos sentidos (PINKER 2004, 546).

–> Para ler um pouco mais sobre Steve Pinker, além do site, saiu na Folha de São Paulo uma interessante entrevista com ele e o escritor McEwan aqui.

(Interessante refletir que praticamente apenas nas Artes Visuais algumas coisas “estranhas” acontecem, isto é, você já viu um malabarista apenas deixando cair os malabares? Sim, isso, malabarismo “pós-moderno”. Parece familiar com muitas produções “contemporâneas” de Artes Visuais? Coisa pra se refletir, não? Há muita coisa boa, interessante e importante na arte atual, mas tem muita imitação duchampiana fraca por ai :D).

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Notas Sobre a Arte Visionária

Lendo um texto de Laurence Caruana, artista que editou o Manifesto da Arte Visionária, resolvi traduzir e parafrasear aqui algumas dessas idéias que parecem comuns aos artistas que se dedicam a esse tipo de arte. O texto se refere principalmente a pintura, mas pode ter os mesmos valores se traduzidas as idéias para outros meios.

  1. Confrontada pela tecnologia moderna, tal como a fotografia, a arte visionária incorpora estes modos de ver na pintura (veja Pierre Peyrolle em “A Arte Visionária na França”) e mesmo a ultrapassa através da pintura hiper-realista* (veja “Mati Klarwein revisto”). Fazendo isto, a Arte Visionária procura também reproduzir exatamente o que nenhuma fotografia pode: sonhos, visões alucinogênicas, estados psicodélicos, etc.
    (*) Ou Richard Estes, Claudio Bravo ou Chuck Close.
  2. Através de estados alternativos de consciência (os ENOC na minha tese), o artista visionário encontra modos diferenciados de perceber os trabalhos de arte tradicional. Muitas mensagens inesperadas (escondidas previamente ou “despercebidas”) emergem agora, expandindo nossa “estreita, demasiada estreita” percepção da história da arte. O artista visionário tenta integrar esta visão renovada do passado em todos os trabalhos futuros.
  3. Para o Artista Visionário, a tela é como uma janela em outro mundo. Ele não admira a janela em si, ou presta atenção na qualidade do vidro. Faz o médium (tintas, pinceladas, etc) tão transparente quanto possível, de modo que a imagem possa “i-mediatamente” ser apresentada ao observador. Tenta apresentar tão autenticamente quanto possível a visão original.
  4. O discurso* tem uma existência autônoma à parte do artista e do crítico. O título dado pelo artista participa num relacionamento poético com a imagem e o texto crítico explora nas palavras o mesmo assunto alusivo que a pintura explora nas imagens: sonhos, visões, alucinações.
    (*) Laurence se refere ao fato de que muitas obras atuais necessitarem de um conceito para se sustentarem. Material de bom humor sobre isso pode ser lido em A Palavra Pintada de Tom Wolfe.
  5. A Arte Visionária conduz a uma existência marginal. A busca espiritual da maioria dos artistas impossibilita-os de um interesse maior pelo valor material de seu trabalho. Os artistas estão ocupados demais em explorar seus mundos internos para promoverem sua arte como um bem de consumo (atender abertura de galerias, fazer contatos, etc). A pintura permanece como um trabalho de arte, muitas vezes não compreendida pelos “antigos contemporâneos”.
  6. A Arte Visionária é ligada a internet. Melhor que fazer intermediações, a internet apresenta imediatamente as imagens. A web permite acessar os trabalhos livremente e de se comunicar diretamente com o artista. O galerista como o intermediário ou o “porta-voz”, tornam-se obsoletos. E o papel dos galeristas é assumido por artistas autônomos e colecionadores independentes e de visão mais ampla.

Os artistas visionários estão em dia com as pesquisas contemporâneas da psicologia profunda, das neurociências, da física quântica, de novas investigações antropológicas, arqueológicas, de tudo que envolve o homem diante do absoluto misterioso e sua eterna busca de significado.

Movimentos esses típicos do milênio que se inicia e que teve, no caso da cultural ocidental, um primeiro impulso de massa nas décadas de 1950 e 1960 e que são retomadas novamente. É a primeira vez que a ciência se alia de forma lúcida com os fenômenos espirituais.

No Renascimento houve a aproximação da ciência com a arte, uma delas na aplicação da perspectiva desenvolvida por Brunelleschi nas pinturas. Essa época foi marcada pelo antropocentrismo, contapondo um pouco os sentimentos devocionais religiosos que vinham da Idade Média. A época atual não se assemelha ao Renascimento nesse sentido, mas podemos pensar que estamos diante de um humanismo-científico-espiritual em pleno desenvolvimento.

A arte é usada então, como um meio de comunicação, de compartilhamento desse universo, impulso presente desde os tempos da caverna, buscando, como diz L. Caruana: Ser reveladora